terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Rafael escreve Carta ao Povo de Cabo Frio e anuncia saída da vida política.



CARTA AO POVO DE CABO FRIO
Neste ano de 2020, completo 16 anos de militância política. Nunca quis ocupar cargos ou mandatos, nunca tive um cargo comissionado. Sempre lutei de forma voluntária por um ideal: transformar a minha cidade.
Naturalmente, com as lutas em favor dos trabalhadores, pela Educação e contra os desmandos dos governos municipais, o destaque político foi surgindo e urgindo a necessidade de se avançar na direção de um mandato, que me foi conferido pelo povo desta terra no ano de 2016 – um dos maiores orgulhos da minha vida.
Minha família havia me pedido que não me candidatasse. Que não abandonasse a carreira acadêmica. Que não deixasse de lado os concursos para os quais, com muito suor, havia sido aprovado e empossado. Que não tornasse secundário o cuidado da minha saúde, desde sempre temerosa, diante de um histórico familiar de cardiopatias. Naquele momento, chamei para mim a responsabilidade de negar o clamor de quem me amou desde sempre e disse não ao que me foi solicitado, entrando de cabeça numa campanha sem recursos, que contou com a militância de uma categoria e a força de uma ideia.
Provamos, juntos, que era possível vencer uma eleição sem acordos espúrios e fazer um mandato que não fosse submisso aos poderes de governos ou de interesses privados. Provamos, juntos, que era possível um trabalho fiscalizador, livre, que denunciasse, mas também que propusesse, liberto das amarras e barganhas político-eleitoreiras – um mandato de vereador como todos os mandatos deveriam ser: eleitos, pagos e orientados pelo povo e para o povo de uma cidade.
Estas vitórias, entretanto, também foram minhas derrotas. O evidenciar de uma luta política bem sucedida e os pequenos avanços que, unidos, conseguimos em favor de Cabo Frio, sempre esconderam, nestes 4 anos, um preço duro de ser pago: a lenta ruína de algumas vidas, a saber, a minha própria e a da minha família, a quem eu havia negado em favor de um projeto político.
Por sorte ou providência, o prédio inteiro não desabou, mas viu suas vigas serem abaladas. Nada é mais doloroso do que ver quem você ama, pouco a pouco, definhar por dentro, em seu psicológico e emocional. Nada é mais doloroso do que se enxergar lutando por uma multidão, carregando nas costas o fardo de um povo inteiro, mas ter seus bens mais preciosos sacrificados – a família que amo, minha própria saúde. Paguei um preço muito caro pelo meu amor por Cabo Frio. Fiz pouco? Talvez. Lutei mais do que deveria? Provável que sim.
Agora, no limiar de um novo desafio eleitoral, sou novamente exortado por meus familiares a deixar o que me pediram para jamais ingressar: um mandato político. São as mesmas pessoas que amo que pedem, novamente – mas já são outras. Já são abaladas e destruídas emocionalmente por toda sorte de risco, crises, conflitos, perigos e aniquilação da vida pessoal e da carreira que um mandato político hoje traz, ainda mais quando se decide viver intensamente, 24 horas por dia, essa missão, conforme escolhi desde o primeiro dia, desde o dia de minha posse. Some-se a isso o clamor interno pela minha saúde, da qual sempre me descuidei, a qual abandonei por completo e visivelmente nestes 4 anos. Uma hipertensão foi adquirida e problemas cardiológicos aprofundados neste período, culminando nos últimos dias 3 e 7 de fevereiro, quando picos de pressão e taquicardias levaram-me a atendimentos médicos no município de Macaé, onde leciono.
Esse conjunto de fatores me fez, portanto decidir por acatar desta vez, ao contrário do que fiz em 2016, o pedido da minha família. Se há 4 anos optei pelo meu ideal e pelo sonho de melhorar, ainda que um pouco, a minha cidade, às custas do sacrifício de quem amo, agora chega a hora de retribuir e compensar os males decorrentes de minha primeira decisão. Eu amo Cabo Frio e estou disposto a todos os sacrifícios por ela. Mas chego num limite e numa bifurcação da vida. Avançar no processo político, na direção de uma missão que consumirá a todos ainda mais, significará a derrocada da missão que descobri, ao longo desse tempo, na verdade, ser a mais sublime e a mais importante de todas: ser e estar em família. Ser e estar vivo, não para mim, mas pelos que me amam.
Considerarei, ao final deste ano, cumprido meu compromisso com o povo de Cabo Frio. Cumprirei, até o último dia, com o mesmo vigor e dedicação de sempre, meu mandato de vereador, livre, de luta, combativo, sem compromissos com governos ou com interesses privados. Declaro que, pelos motivos acima expostos, não irei concorrer a nenhum cargo eletivo no pleito de outubro de 2020, seja ele de prefeito, vereador ou vice-prefeito. A partir de março, estarei iniciando uma nova construção partidária, em outra legenda, agradecendo ao PDT pelos 15 anos de lutas que travamos juntos. Apoiarei o nome de José Bonifácio para a prefeitura da minha cidade, por considerar ser o que mais se aproxima do que idealizo para a minha terra. Lutarei para que aqueles e aquelas que apoiam minhas ideias possam fazer o mesmo.
Com estes atos, estarei, em 31 de dezembro, encerrando minha trajetória política, sem jamais sair da luta. Afinal, não são apenas cargos públicos eletivos as ferramentas eficazes na batalha por uma cidade mais justa – muito pelo contrário, pelo que vi nos últimos 4 anos.
Não tenho a vaidade dos cargos ou do poder, apenas a certeza de que é possível e necessário lutar por sonhos. Meu maior sonho hoje, porém, é ver meus filhos crescerem, o que praticamente não fiz em todos estes anos. Meu maior sonho hoje é não ver minha família sucumbir à dor da minha ausência. Meu maior sonho hoje é evitar que quem me ama sofra a minha partida, diante de um turbilhão de enfermidades que já se abatem sobre mim e que sei ser fruto da escolha que fiz em 2016.
Não sei se outros fizeram, fazem ou farão mais. Mas eu dei tudo de mim pela minha cidade. Paguei um preço alto por esse sacrifício. Doei os melhores anos da minha juventude por essa luta. Não me arrependo de absolutamente nada, apenas de não ter sido melhor nas escolhas que fiz. Seguirei pronto para as batalhas do nosso povo, mas peço que aceitem meus limites, minhas desculpas e minha gratidão a todos e todas que, voluntariamente e veementemente, lutaram comigo até aqui.
Alguns chamarão de fraqueza. Outros de covardia. Sigo sereno, pois mostrei coragem em cada minuto deste mandato. A luta continua sempre. O sucesso de uma ideia vale o fracasso de um homem. Saio da história para entrar na vida.
Cabo Frio, 14 de fevereiro de 2020
Rafael Peçanha de Moura
Professor

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