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terça-feira, 1 de agosto de 2017

O PAPO DE HOJE - Nesta terra todos são iguais?


Neste sábado, celebramos os 105 anos do nascimento do poeta Victorino Carriço, que também foi vereador, embora – reze a lenda – tenha abandonado o cargo por entender que “política e poesia não rimam”. Homem de caráter regional, nasceu em bairro limítrofe entre São Pedro da Aldeia e Cabo Frio, indo viver em Arraial do Cabo, na época em que todo esse território era um só. Autor de larga produção e variedade artística, acabou sendo mais conhecido por ter sido o autor do nosso hino.

Victorino faria 105. Meu filho tem 4. E por conta do estímulo da escola e da veia política da família, está aprendendo, com ótimo aproveitamento, a composição musical mais célebre de nosso poeta. Mais do que isso – ele gosta da música. O hino cabo-friense não é, para ele, um exercício de obrigação cívica, mas uma canção que encanta. Ao contrário, é ele que me traz para o debate – “Pai, vamos cantar de novo?” – “De novo filho?” – já era a sexta ou sétima vez – seguida.

Ao final da melodia, a frase que ele mais entoa com clareza e memória, diz que por aqui não há forasteiro, “pois nesta terra todos são iguais”. Sempre que a música acaba, me vem aquele frio na barriga. E vem por dois motivos. Primeiro porque, quando eu a ouço e vejo pais de família nas ruas procurando emprego, pedindo dinheiro, ou crianças trabalhando de forma ilegal e escrava, eu tremo diante da incompatibilidade entre poesia e política – e vejo que a lenda da frase de Victorino era real. Em segundo, esfria meu estômago imaginar que meu garoto irá perguntar, em seguida, o que a frase significa – e que eu terei de explicar. Por isso, toda vez que cantamos, eu puxo outro assunto após a estrofe derradeira, ou faço um elogio, ou desvio a prosa de qualquer forma.

“Pai, o que é isso?” – “Isso o quê?” – me fiz de desentendido, torcendo para que aquele momento não chegasse, e, ao mesmo tempo, não acreditando que ele batia em minha porta. “Nesta terra todos são iguais... o que é isso?”. Pronto. Meu pesadelo estava imposto e meu desafio lançado. Respirei fundo o vento sudoeste que ameaçava soprar em nosso passeio matinal, e, mesmo com o ventre gelado, como um mergulho na ressurgência, tentei resumir assim:

Significa que o moço que escreveu o hino, filho, queria que, na nossa terra, todos fossem iguais. Ele escreveu uma vontade. Ele mandou um recado cobrando a gente. Nós é que precisamos fazer com que, nessa terra, não haja ninguém com fome, sem trabalho ou sem casa. Ele não viu uma terra onde todos eram iguais. Ele pediu uma cidade assim.

Ele entendeu. É muito esperto. Já tinha percebido que igualdade é um conceito que passa despercebido da realidade, mas que dependerá de nós seu alcançar. Acredito que levará isso para a vida como meta, mais do que como utopia. Quem sabe, quando for adulto, ou seus filhos, ou seus netos, entenderemos que a poesia nem sempre é uma descrição do real, mas o estabelecimento de um sonho-objetivo. A gente às vezes escreve, em versos, o que queremos ver acontecer, exatamente porque não enxergamos, nas ruas, aquilo que desejamos. Obrigado, Victorino. Vamos tentar dar a nossa contribuição para que a sua inspiração se torne realidade e educar nossos filhos para que eles continuem as nossas obras.

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