segunda-feira, 31 de julho de 2017

O PAPO DE HOJE - Divas.

Assisti, neste fim de semana, a uma das falas que mais me emocionou em toda a minha trajetória acadêmica e política. Não foi um intelectual, doutor ou estadista que me contou uma história, mas uma professora alfabetizadora, negra, do interior do Paraná, que, simplesmente, contou a sua emocionante trajetória, de forma até esticada demais, sem qualquer técnica de atração ou encantamento discursivo, diriam alguns, como as que vemos por estas propagandas televisivas, vídeos de auto-ajuda ou palestras de coaching.



Nenhuma fala sobre preconceito racial será a mesma no Brasil depois de Diva Guimarães. Questionamentos supérfluos e reacionários serão facilmente rebatidos com a história real dessa senhora que viveu na pele, através de uma educação branca, com suas histórias e estórias lavadoras de cérebros, a implementação de uma mentalidade racista na cabeça do nosso povo – pois não bastava apenas praticar o preconceito contra o negro, era  preciso ensinar o preconceito ao próprio negro. Teorias e teses caem por terra diante de uma realidade falada e vivida.

O termo diva vem do latim divus, que designava toda entidade espiritual feminina. Séculos após, divas são mulheres que se destacam no mundo artístico. O latim, de origem romano, é uma língua de um povo branco, que escravizava brancos e negros, conforme o era no padrão dos povos da antiguidade. As divas do cinema ou da música ocidental, majoritariamente, são divas brancas. Mas são todas mulheres. A Revista Quem, das Organizações Globo, em 2013, escolheu as 10 maiores divas da música internacional em homenagem ao dia internacional da mulher. Só duas eram negras. O Portal Vírgula, especializado em TV e cinema, elegeu em 2014 as 20 maiores divas da história do cinema – nenhuma era negra. Surge então, aqui, como em outros setores da sociedade brasileira e ocidental, a velha pergunta: a arte imita a vidas ou a vida imita a arte? Ou seja: há menos mulheres negras liderando campos sociais (cinema, TV, música, empresas, literatura, etc.) como um reflexo da desigualdade racial ou a desigualdade racial é provocada, também, pelo funil social que bloqueia o acesso de mulheres negras aos postos de liderança?


Neste domingo, Copacabana viu a III Marcha das Mulheres Negras no Centro do Mundo, que celebrou os 10 anos da Lei Estadual 5071 de 2007 – Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha no Estado do Rio de Janeiro, comemorado em 25 de julho. A fala de Diva Guimarães em Paraty, mais do que um presente não intencional em celebração dessa década, parece um recado. É preciso trabalhar para combater o tosco e arraigado preconceito que ronda nossas histórias de vida, transformando nosso país, nosso estado e nossa cidade, por vezes, num inconsciente capitão-do-mato, que se acha senhor só porque calçou as botas sujas do brechó da Casa-Grande. Chegou a hora de transformar as datas comemorativas em marchas; os discursos em experiências reais e as nossas milhares de divas em mestras. 

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