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segunda-feira, 13 de junho de 2016

OPINIÃO | Os Alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus no século XIX e XX | Por Adriano Chagas*



O autor nos traz a relação entre medo e tranquilidade e como essas características, intrínsecas ao homem, podem mudar completamente a história de um grupo ou de uma nação. O comportamento das sociedades depende das condições que nelas existam. Os agentes, grupos organizados e governantes: aristocracia; nobres; burgueses e grupos estudantis, na Alemanha, atuaram como protagonistas nessa mudança. Outro sintoma do monopólio estatal da força física é que ele frequentemente pode servir a certos interesses como uma arma perigosa, que em alguns casos, beneficia seus próprios governantes.

Os estados mais fortes comumente promovem a violência, pois o medo assim os impele, mas esquece-se que os estados atacados por si só já são mais fracos, logo são impossibilitados de saírem ao ataque na expectativa da pilhagem salvar seu sistema. Então porque existe essa promoção gratuita da violência? Talvez a resposta seja o medo, esse elemento que (des)norteia as convicções dos grupos, e com a Alemanha não foi diferente.

É provável que muito desse sentimento seja proveniente da fragmentação a qual a Alemanha foi submetida e que, somente no futuro, como se mostrou, essa sensação de inferioridade iria ser cambiada por uma grandeza nunca vista no mundo. Bismarck, com a unificação, proporcionou a estabilidade necessária para iniciar o caminho que transformaria a Alemanha.

Esse caminho, mais tarde, ainda reservaria alguns obstáculos que a colocariam de novo em uma situação de inferioridade.

Muitos jovens foram para os campos de batalha em 1914, acreditando ser algo maravilhoso. Havia ali um sentimento de pertencer a uma futura grande nação. Mas na verdade a guerra foi um morticínio. E é aí, quando você vai para a batalha e vê que somente do seu lado é que os homens caem, que os alemães perceberam que o jogo mais uma vez havia escolhido um vencedor e que não seriam eles.

Os generais franceses atuais vencedores, apostavam na ofensiva, enquanto os alemães orientados pelo plano de Schlienfen, que graças a uma invasão na Bélgica, proporcionaria uma rápida inserção na França, já que as tropas alemãs estariam livres para a guerra na frente leste.

Os EUA, assim como a Grã-Bretanha, temiam que a Alemanha dominasse todo o continente, sendo inevitável sua entrada na guerra, que eliminou de vez qualquer possibilidade de vitória alemã. E como uma tragédia anunciada os alemães são derrotados, o Kaiser e os príncipes perderam seus tronos. O fim do regime e a destruição pós-guerra favoreceram a ascensão ao poder de grupos que viviam renegados. Em destaque estão as organizações de trabalhadores. A consequência desses acontecimentos foi a redistribuição de forças. Os soldados e trabalhadores não queriam, agora, prestar obediência à liderança de uma classe derrotada.

Estava claro que a instituição Guilhermina tinha um problema a ser resolvido, derrotada interna e externamente, restabelecer a Alemanha com potência militar e ainda manter seu poder sobre a classe de trabalhadores que, nesse momento, estava cheia de reivindicações.

Nesse cenário aparecem os Freikorps (grupos paramilitares) cujos membros respiravam a tradição militar. Os Freikorps detestavam a república parlamentar, sua propaganda serviu como preparação para o putsch. Após o fracasso do putsch Kapp surge uma organização terrorista denominada “Consul”, que tinha como objetivo o assassinato sistemático de políticos “indesejáveis”. Os membros dos Freikorps e das associações estudantis, foram responsáveis por inúmeros assassinatos nos primeiros anos da república de Weimar. A maioria desses terroristas eram recrutados na “boa sociedade” Guilhermina e nas famílias de classe média. Esses assassinatos eram a sinalização de que a velha república parlamentar não era desejada e que agora a aspiração era uma forte ditadura militar. A incompetência do Kaiser e seus dirigentes em vencer a guerra provaram que suas promessas, às classes trabalhadoras, não passavam de palavras vazias.

O momento pelo qual passava a Alemanha mostrava nitidamente que o corporativismo era a única maneira de autopreservação e que somente no Freikorps era possível encontrar tal elemento. E foi para lá que se encaminhou a maioria dos desempregados. Um grande número de Freikorps dirigiu-se ao Báltico, numa campanha de libertação dos proprietários rurais germano-bálticos e líderes do movimento nacionalista letão do controle Russo. Para esses grupos foram prometidas terras em troca da libertação. É aqui que podemos entender o desenvolvimento de grupos terroristas que atuaram contra o novo estado alemão.

Os Freikorps veem no partido Nacional-Socialista uma nova possibilidade de darem continuidade as suas ideologias políticas. Essa adesão foi importantíssima para o sucesso e ascensão de Hitler ao poder, afinal a capacidade militar e organizacional dos Freikorps tornou-se imprescindível para tal sucesso. Hitler teve êxito onde líderes do Freikorps falharam: na destruição total do regime parlamentar de Weimar.

A organização dos jovens da república de Bonn foi o fator chave, pois sua mobilização, mesmo ilegal, contribuiu, através de assassinatos políticos, para abrir novas perspectivas para o futuro. O sentimento desses jovens era de estar engessados num sistema que não lhes favorecia em nada, tampouco para um futuro significativo.

* Adriano é professor, historiador e escreve no Blog às segundas-feiras.


Este texto foi originalmente publicado em 14/06/2012. Para ter acesso à publicação original, clique aqui.
Fonte: Os Alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus no século XIX e XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. , 1997.

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