sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O que é uma consciência negra?

Por Rafael Peçanha*

É inegável que a pobreza brasileira vem caindo gradativamente nas últimas décadas. E é inegável também que há número significativo de afrodescendentes partícipes dessa relativa ascensão social do povo brasileiro. Entretanto, a tentativa de dissociação entre a realidade contemporânea da nossa gente negra; e as mazelas históricas da escravidão é um erro técnico e social gigantesco. Como disse Darcy Ribeiro, assumamos ou não, nós, brasileiros, temos como a mais terrível das heranças o fato de "levarmos sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, serviciar e machucar”.

É isso: somos um povo colonizado e “educado” por uma cultura autoritária, violenta e racista. Assumir isso – isto é, o preconceito que pode estar dentro de cada um nós, não por nossa culpa, mas como efeito da nossa história – é condição sine qua non para transformarmos esta nossa realidade. Entre 1992 e 1999, o Brasil iniciou um ciclo de redução da pobreza, que permanece até hoje. Naquele período, entretanto, a pobreza branca foi reduzida em 14% e a pobreza da população negra em apenas 4%, se compararmos os números absolutos dos dois anos. Levando-se em conta, porém, que a população aumentou e a pobreza geral diminuiu, observa-se que, neste mesmo período, em números relativos, a pobreza negra cresceu: 2,6%. Os dados são do IBGE/PNAD.

Essa lembrança de 18 anos atrás segue seus passos hoje e reafirma a forma “diferenciada” a partir da qual o negro é tratado no Brasil. Podemos esconder isso em textos bonitos e propagandas modernas, mas, na prática, o que vemos pelas ruas é o afrodescendente sendo olhado ou valorizado de maneira inferior dentro do ônibus; das igrejas; dos locais de trabalhos; nas empresas; nas repartições públicas e nas escolas. Consciência Negra não é desenvolver um pensamento que feche a população afrodescendente em si mesma. Consciência Negra não é um conjunto de peças publicitárias bonitas que não mudam em nada – e ainda maquiam – a nossa realidade. Consciência Negra, concluindo o que começamos com Darcy Ribeiro, é, reconhecendo essa herança violenta e escravista, provocarmos uma "crescente indignação, que nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária”. Que o amanhã de Darcy seja o nosso hoje. Feliz Dia da Consciência Negra.

*Especialista em Sociologia (UERJ); Mestre doutorando em Antropologia (UFF) e professor da disciplina “África – Século XX” na Universidade Estácio de Sá.

Um comentário:

Anônimo disse...

400 anos depois Cabo Frio continua saqueada,espoliada e muito mais submissa. Pelo menos os índios tinham vergonha na cara, coisa que o ser rastejante que aqui habita, não tem.