quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

OPINIÃO - Adriano Chagas*

A ESCASSEZ DAS MENTES POLÍTICAS
Todo o processo de extração tem como fim específico a retirada de recursos de um determinado local para suprir necessidades em outro, sendo assim tal procedimento apenas assola a origem em benefício do destino. Mas se no destino não souberem utilizar de maneira acurada tais recursos, a paisagem entre origem e destino não se diferenciará. Serão apenas assolações. As duas serão ruínas, a primeira porque de maneira descuidada não se cansa em mandar; e a segunda por sua ganância desmedida acreditando que as remessas não terão fim, segue apenas usando tais recursos e sem se preocupar com a manutenção não para de gastar.
Talvez por termos sido uma reserva extrativista durante longos séculos de Portugal, ainda hoje tenhamos a ideia de que só vale retirar e que a manutenção daquilo que dá não é necessária, haverá “para sempre”. Será?
A corte portuguesa sabia bem o que era gastar sem responsabilidade, incapaz de garantir mecanismos para a continuidade do luxo e da luxúria. Porém tudo tem um preço, que mesmo lançado na conta do povo, uma hora torna-se impossível de se pagar e aí as coisas dão o que dão.
Poder-se-á verificar, sem assombro, que os acontecimentos de hoje são como os de ontem, há 300 anos, nada mudou, o descaso e a falta de cuidado continuam a fazer parte da rotina daqueles que por obrigação da posição política que ocupam deveriam garantir o contínuo fluxo desses recursos, evitando a sua escassez.
A maior escassez que hoje nos atormenta é o político comprometido com o desenvolvimento de sua cidade, seja esta cidade a que fornece ou a que recebe recursos.
Nossas cidades vêm sofrendo há muitos anos com o descaso e o despreparo das gestões políticas, que “abrilhantaram e abrilhantam” as cadeiras de nossas repartições públicas.
Não bastassem, algumas destas cidades tem sido alvo de um crescimento alucinado e desmedido, fruto da incompreensão da gestão, que, preocupada com questões individuais, acaba por abandonar ações que visam melhorar a coletividade. Esse comportamento, fruto da precariedade intelectual, que deveria aproveitar as idas além continentes para agregar valor e inovação tecnológica à sua origem acaba por não ter efeito algum, é tratada como um mero passeio solo custeado pelos impostos.
Pode ser por conta disso que a infraestrutura urbana está cada vez mais maquiada, os recursos destinados para a pavimentação, água e saneamento, que, deveriam contemplar todas as áreas de uma determinada cidade, sobretudo a periferia, local este que sempre elegeu políticos de todos os “naipes”, acaba por chegar de maneira muito tímida a esses desafortunados, evidente, ora, se tudo estiver perfeitamente em ordem nas áreas periféricas o que poderá ser prometido no próximo pleito.
Bem diferente do que acontece no Velho Continente. A pavimentação na Europa parece coisa de outro planeta. Além de abrirem o chão, deixarem plano e batido, colocam, depois de todas as conexões instaladas, uma malha entrelaçada que receberá o concreto antes do asfalto final, ou seja, sabe quando que aquele asfalto vai quebrar? Quando Deus quiser! O gestor que lá realiza tal ação não está preocupado com seu rival ou se o mesmo vai fazer ou não, o importante é que suas obras fiquem para todo o sempre, e assim quase ficam. Economizam-se recursos.
A corrupção por lá, como aqui, tem níveis, não que se justifique, mas retirar da infraestrutura de sua cidade não é o forte deles. Onde também não o é na China, por lá o político corrupto é fuzilado.
E de nada adianta, em “ato de bravura”, sendo a intenção nobre, reduzir na própria folha, pois apesar da amnésia reinar na maioria das pessoas, os anos “dourados” foram suficientes para as gestões futuras poderem reinar sem nenhum centavo a ser recolhido, haja vista que na teoria já se acumulou o suficiente.
No entanto nunca é o suficiente, a Coroa era um ralo sem fim, de lá para cá pouca coisa mudou em nosso Brasil. Aqui se acredita que os recursos não vão acabar.
O petróleo teve seu repasse reduzido, no entanto seu passado foi tão soberbo que nada justifica culpá-lo por todos os cortes que se acreditam necessários. Coisa de político sevandija, amedrontado pelo diminuto cérebro.
O melhor político é aquele que sabe cuidar da origem dos recursos, para que o futuro, no seu destino, diferente de um estado de tristeza sombria, seja um conjunto de ações continuadas que visa o completo bem estar social, para que cada vez mais possa investir em desenvolvimento, ou seja, na educação, fonte fundamental de uma nação forte, para que tais cidades possam produzir intelectuais e cientistas que ficarão na história por seus contributos, gênios, inventos e Nobéis, somente assim poderemos nos orgulhar de nossos políticos, que serão nada mais que o reflexo de uma sociedade preparada, sem desconfiança, que só anda para frente, “pois para trás, nem para pegar impulso”.
Confio e mantenho a esperança de que homens descentes vão comandar a política e já vejo modestos lampejos de tais almas. Tomara que o futuro seja mais bem iluminado do que o presente, afinal não é a toa que “somos melhores que nossos antepassados”, trata-se de evolução natural.“Espera-se, confiantemente, que esteja próximo o tempo em que o homem, por ignorância, não mais infligirá um sofrimento desnecessário sobre o homem; porque a maioria da humanidade se tornará esclarecida, e irá discernir claramente que ao agir assim inevitavelmente criará sofrimento a si própria.”(Robert Owen, 1927)
E tenho certeza que a minha cidade, Cabo Frio, fará parte dessa história vencendo a escassez das mentes políticas.
*Adriano Chagas é Historiador.

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