sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A UTOPIA DAS DUNAS DO PERÓ.

Utopia. Palavra que, ao longo do tempo, ficou extremamente mal vista no dicionário brasileiro. Tratada como chacota ideológica; aquilo que jamais se pode realizar; sonhos irreais, a utopia virou sinônimo de descrédito e falta de maturidade política. Longe disso, na verdade.

Escrita por Thomas Morus há séculos, A Utopia era obra que apresentava um estado imaginário – não fantasioso ou irreal, mas desejado. Aí está o sentido da utopia: aquilo que se deseja, que se quer. Que se sabe difícil – mas que é possível. Que se entende como luta árdua, mas que se escolhe por lutar.

O caso das Dunas do Peró parece evidenciar bem esse sentido. Aprovado o empreendimento predatório no governo passado em Cabo Frio, foi o esquema grandioso, que envolve empreendedores, órgãos estaduais e parlamentares, mantido no governo atual. Há todo um universo financeiro e político mobilizado e disposto em dar cabo à área ambientalmente rica e necessariamente preservável, em prol de uma obra monumental, com mais de um milhar de lotes à base de preço gravitando em torno dos 500 mil reais por unidade. No total, quase um bilhão de reais em entradas, e, certamente, mais de 60% desse valor em lucro líquido.


Combater uma estrutura como essa, com essa meta de recebimentos e esse nível de investimentos, é mesmo uma utopia. Contra esse mundo de dinheiro e articulação estão pessoas ambientalmente comprometidas, dedicadas e preocupadas com o futuro natural e social da nossa cidade e região, que gastam seu tempo, comprometem suas relações familiares e profissionais em prol dessa luta. Na parceria, grandes órgãos, como a OAB, o MPF e até parlamentares estaduais em alguns momentos – dedicados e mobilizados, mas nem sempre suficientes para a vitória no combate, obviamente, não por falta de empenho, mas pelo nível da pressão exercida pela força descomunal no lado contrário.

As atitudes empreendidas por esse setor crítico e consciente na sociedade têm sido salutares, importantíssimas e decisivas. A realização de audiências públicas; manifestações nas ruas e por escrito; audiências com o MPF e outras mobilizações mostram a existência de uma profunda insatisfação do formador de opinião e do técnico do setor ambiental com o empreendimento. Como todas as demandas do tipo, esta também possui suas dificuldades para atingir as demais raias da sociedade. Mas é fato que, mesmo não tendo se massificado, ela se ampliou, cada vez mais e mais, atingindo mais pessoas de diferentes ambientes, classes e grupos. A movimentação visivelmente crescente nas redes sociais, que já incomoda políticos e parlamentares que participaram decisivamente da implantação da obra, aponta para isso.

O que isso significa? Que se a palavra utopia designa aquele desejo difícil de ser aplicado, mas possível e extremamente saudável para o povo, podemos sim, responder os críticos dessa luta: defendemos uma utopia. Porque, embora seja complicado, é perfeitamente possível parar o poder do dinheiro com a mobilização popular. Afinal, temos visto esse movimento, tanto no plano macro – como nas manifestações de junho de 2013, embora seus efeitos sejam questionáveis – quando no plano micro, no qual mobilizações populares geraram vitórias de categorias sindicais e grupos sociais em Cabo Frio recentemente, como os casos do PCCR, da estadualização do Ensino Médio, entre outras lutas.

Assim, acredito que o grupo, que a cada dia aumenta, deva seguir sua mobilização e sua luta contra o empreendimento nas Dunas do Peró. E se precisarem de mais um defensor dessa utopia – no melhor sentido da palavra, como discutimos – podem passar a contar comigo e com este blog. Essa luta, agora ainda mais, também é nossa.


Rafael Peçanha.

2 comentários:

Julio disse...

Esse povo não se preocupam com os seres humanos vão se preocupar com meio ambiente. Só vocês mesmo!

Julio disse...

CORREÇÃO: Esse povo não se preocupa....
"pertei" sem querer antes da correção. Como dizia o Hemocentríssimo Dr.(ex?) Marcelo: foi o teclado do IPAD.