terça-feira, 28 de outubro de 2014

ARTIGO – A rua, a rede e o gabinete: uma reflexão conclusiva das eleições 2013/2014.


As eleições são um processo cíclico. Se formos analisar suas relações ente causa e efeito, podemos dizer que os pleitos jamais terminam, afinal, as causas de um resultado eleitoral podem estar tanto no dia anterior da votação quanto numa eleição anterior de 4 ou mais anos. Apesar disso, é possível recortar historicamente um período de início das origens mais eficazes e definitivas de um voto.

É o caso das eleições de 2014, que começaram em junho de 2013, com as manifestações pelo país. O que se viu ali não foi exatamente uma vitória das redes sociais sobre as ruas, mas uma ida das redes sociais às ruas. Ali, quebraram-se dois muros: um, que separava o mundo virtual do mundo real; outro, que dizia não ser possível gerar efeitos corrosivos nas cúpulas políticas através da internet. Ali, os gabinetes políticos sentiram o efeito das ruas (que estavam cheias por causa das redes sociais) e, ao menos, ameaçaram mudanças. Ali, a rede ia para a rua, e as duas, juntas, ameaçavam derrotar os gabinetes.


O resultado eleitoral de 2014, entretanto, mostrou que, se a rede tem força para ir às ruas e amedrontar os gabinetes, é fato que ainda as ruas vencem as redes se assim quiserem. A rede social pode vir a ser, mas ainda não é um símbolo ou um termômetro das massificações políticas – ao contrário, a rua quis o que a rede rejeitou. As candidaturas, grupos políticos e propostas de gestão mais repudiadas no mundo virtual foram exatamente as que venceram no mundo real – à exceção, talvez, da vitória da presidenta Dilma, que, nas últimas duas semanas, equilibrou a disputa com aecistas nas redes graças à militância petista e da esquerda brasileira em geral. Entretanto, é fato que, também neste caso, durante a imensa maioria do tempo de campanha, a rede social majoritariamente rejeitou Dilma.

É evidente que as redes sociais geram efeitos nas ruas. Entretanto, a grande massa não possui ainda, no mundo virtual, seu guia principal de decisão eleitoral, por dois motivos: primeiro, porque as redes sociais ainda não são acessíveis à maioria da população, ainda que esse percentual tenha se ampliado muito; segundo, porque a vida humana é multifacetada, e o povo, em geral, recebe várias influências para sua decisão política, a partir das diversas instituições sociais com as quais têm contato: a mídia tradicional (impressa, radiofônica e televisiva); as denominações religiosas; as associações de bairro; as instituições escolares, etc.

Assim, a rua tem vida própria, quer queiramos, quer não. Se uma hashtag, uma postagem ou um comentário possuem efeitos devastadores num processo político (vide os tuítes de Silas Malafaia na vida de Marina), é fato que uma propaganda eleitoral bem produzida e emotiva; placas em profusão; santinhos aos milhões e, principalmente, gente, gente na rua, de todo tipo e por motivos diversos (pagos, militantes, voluntários, portariados, fanáticos, tanto faz), ainda possuem peso maior numa mobilização eleitoral.


Em suma, a rede foi para a rua. A rede poderia ter vencido o gabinete. Mas não venceu porque a rua não quis. A rua ainda é a grande força motora da política brasileira. Mas precisa, cada vez mais, estar aliada à rede para definir uma eleição. A rua tem vida própria, mas sem a rede, pode respirar por aparelhos.

Urge, no país e na nossa cidade, para o próximo pleito, uma via que integre e equilibre, em favor da população, a rua e a rede, como ferramentas populares da vontade do povo na definição dos rumos, ocupações e ações dos gabinetes. É possível. 2014 mostrou isso. Basta querer.

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