terça-feira, 28 de outubro de 2014

ARTIGO – Por uma antropologia eleitoral – uma análise do resultado da disputa presidencial.


Nas primeiras décadas do século XX, o antropólogo britânico Evans-Pritchard foi enviado de maneira subsidiada pelo governo de seu país à região sudanesa da África. Seu objetivo era estudar as realidades das tribos e povos da região, influenciadas sobremaneira pelo poderio inglês. Sua missão, assim, além de acadêmica ou científica, era extremamente política.

Lá, o estudioso conviveu com os Nuer, e, observando aquele povo por anos, concluiu pela existência de um simplório, mas interessante sistema de organização política entre as tribos, que podemos chamar de fissão-fusão.

Mulher Nuer.

A conclusão é simples: duas tribos (A e B) são vizinhas e inimigas. Apesar dessa rivalidade enraizada, ambas unem-se e lutam juntas quando se achega ao local um inimigo maior, de fora daquela região: a tribo C. Ou seja: as diferenças entre os comuns são ressaltadas no conflito entre eles, mas apagadas quando o inimigo lhes é totalmente diferente e oposto. O mal maior – ou o risco de sua vitória – suprime as diferenças entre as tribos, já que estas – as diferenças – passam a ser consideradas males menores.

O que se viu no segundo turno concluído ontem foi nada diferente, quase 100 anos depois, do que se obteve dos estudos de Evans-Pritchard.

A divisão interna da esquerda brasileira, em face da unidade do pensamento conservador nacional, sempre foi um problema de articulação para os progressistas. O enfraquecimento oriundo dos rachas internos, em contraste com a padronização ideológica da direita, sempre enfraqueceu o processo das causas populares, facilitando a vida da direita.


Ontem, entretanto, o resultado obtido foi uma soma, uma reunião do voto, em alguns casos, consciente e total; em outros casos, útil, crítico ou de protesto, do que se chama ou se entende por esquerda brasileira. Igualmente, o inimigo que se avizinhava ao pensamento progressista – isto é, o modelo neoliberal, conservador e privatista do PSDB – ficou considerado como um mal maior do que as diferenças internas. A rejeição ao PT, dentro e fora da esquerda, era e é grande, mas não foi maior do que o risco de um retrocesso conservador.


O avanço do pensamento tradicional e neoliberal é evidente, mas não mostra um país dividido. Mostra um país equilibrado entre duas macro-tendências políticas, sociais e econômicas. Isso não pode ser ruim para a democracia. Ao contrário, aponta para a necessidade cada vez maior de nenhum “lado” se reconhecer como dono do país, da consciência ou da vida das pessoas. Todos são suscetíveis a qualquer um dos dois pensamentos. Cabe a ambos, a partir de agora, dialogar com menos violência verbal, mais respeito e menos conspirações irreais do que o que se viu nesta campanha, pelo bem do país, da vida e da amizade entre as pessoas.

Fica também o recado, em Brasília ou por aqui, para as tentativas de nova política e de novas caras da política: não adianta propor o novo, sustentado pelo atual ou pelo antigo. Não adianta colocar remendo novo em roupa velha. O “novo” não pode ser um velho maquiado. O “novo” não pode ser o mais do mesmo, sustentado por um governo, disfarçado de oposição. É preciso definir um lado, ainda que de maneira crítica. Ou criar o novo, uma nova via, um novo modelo, mas deixando claras as inspirações, as ligações e os desejos em relação a um dos lados da moeda. Porque se o morno é vomitado, quem fica em cima do muro pode cair para nunca mais levantar.


2 comentários:

Anônimo disse...

O grande recado nas urnas do Brasil fora Pt. Nao sei porque o povo de cabo frio ficou meio acanhado. Tem muito petista safado aqui tambem.

Filadelfo disse...

Prof Rafael, boa tarde.
Gostaria de solicitar ao sr, que fizesse uma análise, sobre o que ocorreu em nossa cidade no que tange ao candidato Pezão. As forças políticas se uniram, em sua grande maioria por ele.É claro, que a maioria que estiveram naquela fatídica foto do restaraunte, estava preocupada com o povo e cidade. "Farinha pouco, meu pirão 1º". Durante 1 bom tempo vimos discursos contra Cabral e Pezão, seja dos Legisladores e do Executivo de nossa cidade. Como então conseguem isto? Seria o poder pelo poder? Ou oportunidade, pelo oportunismo? Pior, qual foi o resultado na urna? Quem venceu, Pezão ou Crivela em nossa cidade?
Como podemos dizer que estávamos com o povo em junho de 2013 e, com Pezão em outubro de 2014? Há incoerências nesta postulação? Por favor, faça uma análise antropológica sobre isto.Abç's!!!
Rev. Filadelfo Filho