segunda-feira, 28 de julho de 2014

EDITORIAL - A declaração proporcional.


A recente declaração emitida pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Estado de Israel sobre a nota oficial do Estado brasileiro acerca dos ataques à Palestina foi motivo de polêmica no noticiário internacional e no âmbito das relações institucionais entre os dois países.

Yigal Palmor surpreendeu ao comparar a acusação de desproporcionalidade feita pelo Brasil à atuação israelense em Gaza com a derrota da seleção brasileira para a Alemanha na Copa do Mundo. Além disso, classificou o Brasil  de "anão diplomático", afirmando que o país não possui boas relações internacionais.

Não se trata aqui de responder à análise acima, pouco inteligente, e muito mais nervosa e emocional do que racional. Não se trata de achar um absurdo a comparação entre um jogo de futebol e milhares de vidas perdidas. Nem se trata em discutir a abordagem da política internacional feita pelo porta-voz, na contramão da realidade do setor, no qual o Brasil é um dos 11 países do mundo que mantêm relações com todos os estados integrantes da ONU.

Trata-se de uma conclusão evidente e simples. Se os ataques de Israel são considerados desproporcionais pelo Estado brasileiro - e não apenas por nós, mas pela maioria do Conselho de Segurança da ONU - a revolta do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores israelense é, por sua vez, proporcional ao Estado por ele representado. Se um porta-voz deve ser, como o nome diz, a voz de seu país, nada mais coerente - portanto, proporcional - do que o que ouvimos de Palmor.

Israel possui uma política externa nos últimos 66 anos alternada entre posicionamentos arrogantes, violentos, desrespeitosos; e tentativas de diálogo, compreensão e pacificação. Mas é fato que o primeiro grupo de valores supera, quantitativamente, o segundo nestas quase sete décadas de formação do Estado israelense. E é este o conjunto de posicionamentos que domina aquele país na atualidade.

Os ataques israelenses são mais do que desproporcionais. São desumanos e covardes. Isso não justifica, sob hipótese alguma, a atuação violenta, sanguinária e perseguidora do Hamas à frente do estado palestino, que é outra lástima. Mas, nesse caso, estaríamos analisando uma gestão política isoladamente, enquanto nosso tema é a atuação das forças militares de ambos os Estados na direção dos civis do Estado adversário. E, nesse contexto, a desproporcionalidade dos ataques é evidente até pelos números: dentro dos mais de mil mortos, 43 soldados e 4 civis são israelenses. 

Nesse sentido, a fala de Palmor é mais do que proporcional a um Estado violento, soberbo e impiedoso, que se apoia na parceria estadunidense para conferir dor  e morte a milhares de inocentes na busca de seu espaço vital.

E não se trata aqui de falar sobre  povo judeu ou sobre os cidadãos israelenses, nem sobre o povo israelita. Não cabe relembrar, de forma provocativa, as relações entre judeus e alemães na história recente ocidental. Todas essas posições seriam desvios do assunto aqui tratado, ou abordagens tão vingativas, sentimentais e emocionais quanto às de Palmor. Estamos falando de um Estado e sua atual gestão. 

Netanyahu assumiu o governo como Primeiro-ministro israelense em fevereiro de 2009, depois de se notabilizar, exatamente, por ser o maior crítico dos acordos de paz estabelecidos por Yitzhak Rabin e os Palestinos nos anos 90, pouco antes de ser acusado e indiciado por corrupção, ainda que não tenha sido condenado.

Dessa forma, a voz do porta-voz é tão proporcional à postura desumana do Estado por ele representado quanto os ataques deste são desproporcionais dentro do conflito. E sua declaração, certamente, é proporcional à ausência de argumentos racionais para o debate internacional, gerando a necessidade da postura emotiva vista. Assim, nada mais proporcional do que a desproporcionalidade israelense e sua voz nervosa. 



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