sexta-feira, 6 de junho de 2014

EDITORIAL - O que fazer no dia seguinte do passamento de um grande amigo.


A cidade de Cabo Frio foi surpreendida ontem por duas notícias tristes – uma ao nascer, outra  ao cair do sol: os passamentos do militante político  Thiago “Chumbada” Silva e do professor Trajano Caix. O primeiro, por uma fatalidade cirúrgica; o segundo, por um ato de violência bárbaro.

Chumbada e Trajano eram pessoas da minha relação pessoal, amigos que geravam em mim sentimentos de admiração e respeito extremo.

Chumbada, por seu jeito de criança pura e suas palavras de homem corajoso; por sua alma tranquila e seu espírito aguerrido. Capaz de virar o mundo para salvar um amigo ou para criticar um adversário, encarava ambos os papéis com doçura, respeito e coerência, despejando a mesma força e sentimento no abraço ou na denúncia. Thiago, assim, resumia em si características quase impossíveis de estarem juntas numa pessoa só, e, por isso talvez, era impossível não gostar dele – até os adversários o elogiavam por seu sorriso, educação e polidez, presentes 24 horas por dia. Eu, como ser político, perco um aliado; como ser social, perco um exemplo de cidadania; como ser humano, perco um modelo de coerência e união medida entre a força e o afeto. Estivemos juntos dias antes de seu passamento e sua imagem era a de sempre: alegria com a vida; preocupação com a cidade.

Trajano conheci através de uma pessoa da família que muito o admirava, como profissional e como cidadão. Descobri que boa parte da cidade assim o considerava, não havendo ali uma mera e subjetiva opinião familiar, mas um sentimento de toda uma população.  Adotava um estilo moderno, idéias contemporâneas, mas defendia valores que carecem de importância no mundo de ontem e de hoje: família, respeito, seriedade, compromisso. Amado pelos amigos e amigas da melhor idade e por todas as crianças e jovens da APAE, Trajano fazia do seu compromisso profissional a sua fidelidade moral e social a uma verdade absoluta, entre tanta coisa relativa: o velho e bom amor ao próximo. Sua perda, para mim e para a cidade, é também irreparável. Lá se vai mais um exemplo de cidadão e de profissional com quem eu ainda precisaria aprender muito para ser melhor.

E o que se faz no dia seguinte de duas perdas irreparáveis, pessoal, política e socialmente falando? O que fazer um dia depois de dois tristes passamentos, quando o coração e a mente ainda se encontram desnorteados por um mundo que agora não abriga mais pessoas com quem estávamos juntos, sorrindo e pensando, há poucos dias? Como agir e reagir poucas horas depois de termos perdido amigos, referenciais e modelos do que se ser para se ser melhor?

Homenageá-los, claro, é a resposta imediata e primeira. 

Há quem diga, assim, que hoje não seria dia de se falar em política, em respeito aos amigos que se foram. Creio que seja um erro. Duvido que Thiago Chumbada ficaria feliz em me ver, de onde ele estiver, deixando de fazer aquilo que ele mais gostava. 

Hoje é dia sim de falar da cidade; de buscar a saúde; de ajudar ao próximo; de lutar pela inclusão social; de respeitar os idosos, os doentes. Hoje é dia de ter  amor, de abraçar as pessoas nas ruas com força e de chamar todo mundo de amigo. Hoje é dia de sorrir até para os adversários, sem deixar de buscar ser justo e firme com eles. Porque hoje é dia de prestar homenagens aos meus amigos queridos, Trajano e Chumbada, que se foram. E todo dia dessa nossa vida, daqui para frente, deve ser dia de hoje.

Vão em paz amigos. Vou ficar por aqui tentando imitar vocês todos os dias. A gente se vê mais tarde. E vamos comemorar juntos tudo o que conquistamos e as vitórias que ainda vamos obter em honra a vocês.

2 comentários:

Renata disse...

Que bom encontrar um depoimento como esse, eu estava me sentindo desnorteada depois de saber hoje pela manhã essa infeliz notícia que envolvia o professor, querido Trajano. Compartilho desse questionamento, o que fazer ? Aqui, de longe, envio meus pensamentos de paz e meu abraço a ele e seus familiares.
Renata

DEODORO AZEVEDO NETO disse...

MENSAGEM PARA UM ANJO
Existem pessoas que espalham luz por onde passam, trazem paz, alegria e força no olhar. No céu, recebem o nome de anjo, aqui, chamamos de amigos. "Chumbadinha" Deus chamou de volta.

Deodoro Azevedo Neto