segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A Moda Retrô

Publicado no jornal O Completo em 29 de dezembro de 2012.
 

Se há poucos anos o único momento de retrospectiva anual era este que vivemos – os últimos dias de dezembro – há algum tempo a moda retrô, ao contrário, já domina boa parte das estações que nos cercam.
 
O hábito de utilizar, como se fossem presentes, trejeitos, objetos, eventos e hábitos do passado, tornou-se constante em nossa sociedade, dotado de uma característica comum: são sempre valorizados, na atualidade, elementos desconexos com as tendências dos tempos que vivemos. Se o presente pede óculos pequenos, a moda retrô pede o retorno dos grandes. Se os hábitos presentes solicitam as músicas eletrônicas internacionais, as festas retrô clamam pelo rock nacional dos anos 80 e seu estilo ploc. Se as camisas futebolísticas prezam pelos tecidos multicores, detalhados e sintéticos, o estilo esportivo retrô é de tecidos pesados e simples, quase hábitos religiosos de tão pudicos. Se os objetos eletrônicos hodiernos são os menores possíveis, a moda retrô pede o retorno de grandes artefatos, como os saudosos telefones de gancho.

Uma segunda característica do retrô é a valorização, na atualidade, do que sempre possuiu qualidade duvidosa, mas que, por ser uma “saudosa lembrança de um passado mítico”, acaba tornando-se algo muito positivo e cheio de virtudes. Essa característica não é geral neste movimento, e se aplica apenas em alguns casos, como os das já citadas festas ploc. Coisas como “ursinho blau-blau” e “balão mágico” não necessariamente marcaram uma época como composições geniais, mas, no presente, acabaram tornando-se corolário de uma geração que precisa criar uma identidade que nunca teve – e mais: uma identidade que se deseja muito positiva e saudosa.

Nosso atual momento de retrospectiva, vivido todos os anos, é exatamente como a moda retrô. Pelas televisões, jornais e na mídia em geral, a tendência é trazer, para o presente, fatos passados que já não possuem nexo com os dias atuais, mas que, por serem apoteóticos e emocionantes, tornam-se um consolo salutar para os que não desejam mudar sua própria realidade contemporânea, num anacronismo crônico.

Por outro lado, a valorização presente de fatos retrospectivos do ano que se passou, por vezes, tende a valorizar o que não foi tão bom, desejando passar a ideia de um ano heroico e apolíneo, deixando de lado a realidade dionisíaca da vida, que, longe de gerar depressões diante das nossas próprias tragédias, deve constituir uma força que nos motive a transformar nossa própria condição em um show mais aceitável e agradável aos nossos próprios olhos.
 
 

Parar e lembrar fatos do ano que se passou pode ser uma estratégia proposital para nos convencer sobre a existência de um mundo que nunca existiu. Pode também ser uma opção responsável e madura de análise da própria sociedade e a pontuação de elementos necessários de serem mudados e melhorados com luta. A noite do dia 31 é essencial para escolhermos quais das duas posturas queremos assumir. Boas festas.

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