sábado, 14 de julho de 2012

O retrovisor

Publicado no Jornal Folha dos Lagos em 14 de julho de 2012


Peça importante, mas não essencial na boa direção, o retrovisor ajuda a olhar para trás, especialmente, na iminência de ultrapassagens, já que não é nada seguro superar um carro da mesma pista antes de olhar para o que acontece anteriormente.

Há motoristas, entretanto, que preferem olhar apenas para frente. Não dispostos a realizar ultrapassagens, poderiam muito bem – e até muito melhor – dirigir com retrovisores quebrados ou ausentes. Estes calmos não se arriscam na insegurança de um passar nem se importam com a necessidade de mostrar ao cidadão da frente que lhe é superior – como se ser mais veloz fosse ser mais forte.

Alguns motoristas, assim, não querem assistir pelo retrovisor a mesma cena que já viram há pouco, afinal, um retrovisor nada mais é do que uma transmissão ao vivo de um pedaço da estrada pelo qual já se passou, um remake mal feito de um asfalto já visto, uma reedição de um caminho já ultrapassado, muitas vezes de forma dolorosa.

Tornar o passado presente, tornar o retrovisor essencial, é criar um clima de insegurança. Os que não ligam para essas peças espelhadas, dispostos como orelhas automotivas, dirigem melhor, mais tranqüilos, despreocupados com o pretérito preterido e de olhos atentos apenas no futuro. Já viram trechos inseguros, indecisos, buracos autoritários, motoristas raivosos, jornais recolhidos, fichas enlameadas e co-pilotos vingativos: para quê ver tudo de novo, como um déjà vu masoquista, pela lente antiquada e retrógrada de um retrovisor?

Vez em quando, é preciso apostar no novo e deixar o que passou para trás. Há quem tenha medo da novidade por ser insegura, mas, pasmemos: o antigo, a reedição do que passou, o retorno do passado é que é inseguro. Se o passado recente dessa estrada foi de indefinição, insegurança, medo e dúvida, então o novo é que é o certo, e, o antigo, o duvidoso.

Por alguns anos, não soubemos quem era o real motorista; se ele seria tirado de seu posto. Não podíamos confiar em quem dirigia nossa brasília amarela – muitas vezes com ares de limousine – porque não tínhamos certeza de quem seria o piloto nosso de cada dia. Mais vale um novo chofer fixo do que um antigo taxista que pode ser retirado do volante a qualquer momento. Mais vale contratar um novo condutor do que recontratar um que já desempenhou o mesmo papel no passado, conduzindo nossa caravana por estradas incertas; por vezes bonitas, mas sem gente; dizendo defender quem o contratou, mas acabando por perseguir seus próprios patrões por não o acharem tão bonito quanto ele se achava.

Quebrar retrovisores é um ato de coragem, mas não ato de risco. Risco é dirigir em função deles. Risco é achar que esses pequenos espelhos são TV’s de plasma em tempo real – eles são apenas rolos de filmes antigos, manchados e ultrapassados. Risco é apostar numa direção tão tradicional quanto ofensiva. Risco é dormir com um cordeiro ao volante e acordar com um lobo ao comando. Não corramos riscos: quebremos nossos retrovisores. 

Nenhum comentário: