sábado, 31 de dezembro de 2011

Revelhon

Publicado no Jornal Folha dos Lagos em 31 de dezembro de 2011


Nossa criatividade é desumana: soltamos fogos, bebemos champanhes, vamos às praias e fazemos promessas que jamais cumpriremos. Assistimos a retrospectivas e assistimos expectativas que retrocedem tais como crianças que escolhem apenas os doces que agradam paladares impunes – diabéticos e outros persistem à margem.


Recordamos vitórias que nunca tivemos e olvidamos superações que seriam capas de jornais. Brigamos por políticos que não nos conhecem e conhecemos políticas que nunca brigariam por nós. Discutimos futebol, carnaval e assuntos infinitos, afirmando, com veemência, serem papos encantadores dos desocupados. Mais a mais, refazemos nossas agendas, anotamos nossos aniversários e construímos nossos projetos, com datas exatas para desistências e dias marcados para suas derrocadas.

Mas 2011 teve lá suas tatuagens. Aprovamos casamentos diferentes, passamos a ler mais blogs do que jornais, consolidamos amores que ensaiávamos em profusão e acreditamos em Santos derrotados. Esperamos decisões judiciais como um Talibã espera suas virgens e tratamos o cidadão como um animal enganado em jaula circense. Vencemos editais. Transformamos a cultura em quase-produto. Perdemos grandes homens e vimos seus sucessores. Discutimos a cidade, mas ela resolveu ficar no mesmo lugar, deitada em berço esplêndido, ao som do Canal Itajurú e à luz do céu escuro.

2012, por sua vez, promete ventos de brigas pessoalmente políticas e politicamente impessoais, nas quais as cores de uma blusa ou o nome da bebida que eu te vi beber abobado baterão mais beijos e boçais votos do que suas ideias e projetos que não me dêem um salário forte, fracamente fiel à minha vagabundagem institucionalizada. 2012 promete ser um ano de sons, de carros de som sem festa, um ano de placas que não indicam e panfletos que não esclarecem. Um ano de santinhos do pau oco espalhados pelas ruas e de palcos estridentes dominados por vocalistas que não cantam – nem encantam. Um ano com filmes de ficção científica exibidos em meio a propagandas gratuitas em televisões analogicamente digitais.

E o homem povo, esse estranho, errante e certo, descompromissadamente experto, embebido em bebidas baratas e fogos de artifícios torpes, ouvirá sussurrante a voz da razão – já ela embalada pelos espumantes que lhe conduzem – e, em meio a promessas e abraços, deverá fazer sua escolha por um 2013 que repita este texto – e todos os escritos na cidade há mais de uma década – ou que lhe dê novas linhas. Entre um Reveillon e um Revelhon, existe apenas a sua decisão. Feliz 2012.


Um comentário:

Anônimo disse...

Ótimo relato de uma previsão que se fará em mais este ano de desmandos eleitorais.