segunda-feira, 26 de setembro de 2011

DO SURF OU DO MAR?




Por José Facury*





Nos dias de espera do público, quando estava emprestando a minha funcionalidade ao Teatro Municipal Iná Mureb, à sua entrada, olhava aquele terreno vazio em frente e delirava com a possibilidade de construírem ali um anfiteatro, uma feira de artesanato vinculada a essa arte no seu espírito mais original e um Museu de Artes Visuais, muito próximo da contemporaneidade que pudesse abrigar novos e antigos talentos plásticos da cidade. Dava-lhe até um nome: praça das artes.

O tempo passou e nada aconteceu ali. Mesmo cético, não perdi a esperança...

Eis que agora, se encontra cercada de tapumes para abrigar uma praça, onde nela estará quase tudo menos o Museu sonhado e em seu lugar anunciam que teremos o Museu do Surf. Nada contra! Cabo Frio tem uma história grandiosa por conta dessa importante atividade esportiva que dignifica a ideia. A própria abnegação e insistência do Telmo Moraes com a construção desse acervo já estava por merecer um especial acolhimento oficial.

Mas existe algo maior do que a minha ideia da contemporaneidade museológica artística e a do Telmo, por conta do seu acervo. O nosso mar. O mar de Cabo Frio, decantado por todos nós e, sem dúvidas a maior atração turística da cidade que merece a distinção necessária no lugar destacado pelas obras em questão. E, por sua história repleta de acontecimentos fatos e lendas, caberia ali com toda a grandiosidade necessária algo mais ousado. A pioneira empreitada de termos ali um museu desse próprio mar, só em pensar me enche de orgulho. Se não, vejamos a qualidade dessa importância.

Cabo Frio em toda a sua história se constituiu a partir desse mar. Os estudos geológicos que identificam o rompimento com o continente africano, os índios da cultura sambaqui, a feitoria de Vespúcio, a resistência colonizadora dos Tamoios, os acostamentos de piratas franceses e holandeses, o cerco de Antônio de Salema, a fundação da Vila de Santa Helena dos Cabos Frios, o desenvolvimento da cultura salineira, a produção pesqueira, as marinas pintadas pelos nossos artistas, os importantes naufrágios, as riquezas naturais contidas nessa imensidão de água oceânica que nos cerca, o barquinho da bossa nova de Menescal, os velejadores... e por fim o surf. Caberia um acervo muito mais grandioso que nos alce para a verdadeira vocação turista que nos cabe.

Além da preparação do espaço físico, a oficialidade teria que resgatar o antigo acervo do Elísio Gomes que antes, desprezado pela cidade se encontra em um acolhimento tímido da Marinha no Arraial do Cabo. Além das suas obras que versam sobre os diversos naufrágios ocorridos nessa costa descritos a partir desse próprio acervo.

Cabo Frio está a três anos de comemorar os seus quatrocentos anos de fundação e o Museu do Mar estará mais à sua altura do que simplesmente um localizado museu do surf. Até porque este mesmo acervo esportivo caberia em duas ou três salas desse complexo de reservas marítimas da nossa história, que intuo de extrema importância para a cidade.





* Professor e Teatrólogo

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