sábado, 10 de abril de 2010

Agostinhos e chuvas


Publicado no Jornal Folha dos Lagos em 10 de abril de 2010.

Dois acontecimentos da última quarta-feira, embora aparentemente diferentes, nos fazem pensar sobre um mesmo tema – a conexão social entre a cidade de Cabo Frio e a região metropolitana do nosso Estado e, consequentemente, com a realidade do Brasil.

Nos últimos anos, em meus artigos, tenho batido constantemente numa tecla: há uma alienação informativa na nossa cidade. Há uma cultura, criada e incentivada pelos governantes dos últimos anos, que insiste afirmar Cabo Frio como o Himalaia dos lagos, um mosteiro budista a céu aberto, com uma realidade peculiar, desgarrada do resto do país.

No episódio da série “A Grande Família” desta quarta-feira, o personagem Agustinho Carrara lançava-se candidato a Deputado Estadual, utilizando a promessa de construção de um Parque Aquático para angariar fundos em direção à sua campanha. Sem tecer acusação, parece-nos claro que o episódio se “inspira” numa das negativas realidades da nossa cidade no campo político. Ao contrário do que alguns ufanistas de plantão teimam em afirmar, há motivos para isso. Cabo Frio pode ser referência de belezas naturais, mas, nos campos da política e da criminalidade, é exemplo negativo para o Estado e para o Brasil. Igualmente, foi a realidade da cidade, que salta aos olhos do país, mas passa desapercebida pela maioria da população local, que “inspirou” Manoel Carlos em suas citações sobre a violência local: somos a 16º entre 267 cidades brasileiras no índice de homicídios na adolescência.

A chegada das chuvas e suas conseqüências trágicas, que se concentram em Niterói, deixa também suas marcas em Cabo Frio, não só físicas, como o desabamento de pequeno porte ocorrido na tarde de quarta-feira no Morro da Guia; ou a ressaca da Praia do Forte, iniciada no mesmo dia. Pensemos outras marcas. Pensemos que o morro que desaba tem sido usado como cortina de fumaça política, nos momentos em que uma bandeira torna-se símbolo manipulado por uma mídia servil, para desviar o foco de um desgoverno. Pensemos que em Cabo Frio, assim como em Niterói, tragédias humanas são utilizadas para elaborar ataques contra adversários políticos, ao invés de gerar lutas solidárias em prol da população.

Ao longo de anos, estruturas de circulação de informações e boatos foram criadas na cidade por governos que hoje se degladiam, com o objetivo de ocultar realidades locais. Mas essa cortina de fumaça política não sobrevive aos limites territoriais do Estado e do País.

Não estamos alagados nem ilhados. Cabo Frio é um pedaço de terra cercado de gente por todos os lados. Gente que conhece a nossa realidade citadina, positiva e negativamente, em certos aspectos, melhor que nós, encobertos por véus de (des)informações. Chegou a hora de uma integração regional, estadual e nacional mais realista e ativa que altere esse quadro.

Se tivermos a consciência de que Cabo Frio não é o paraíso tropical que sonhamos, daremos o primeiro passo para torná-la uma cidade conhecedora de seus limites, conectada com seu entorno – e não haverá mais dissidências entre o que sonhamos e o que vivemos: começaremos a transformação da nossa Cabo Frio ideal em cidade real, para nós e nossos filhos. Mas é necessário começar já.

Um comentário:

Helena disse...

É preciso que se tome consciência de lutar por uma vida digna, moradia ,escola, emprego, cultura e lazer.