sábado, 23 de janeiro de 2010

DESEDUCAÇÃO - Análise de um descompasso

Publicado no Jornal Folha dos Lagos e nos sites Radar Público (www.radarpublico.com.br) e Área 22 (www.area22.com.br) em 23 de janeiro de 2010.

Janeiro é mês de férias; fevereiro, de carnaval; março é mês de volta às aulas, ou, no caso de Cabo Frio, de greve. O Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação local decidiu pelo não retorno dos professores da rede às salas. Reivindicam reajuste (que não acontece, segundo o Sindicato, há três anos), bem como outras melhorias de condições de trabalho.

O problema pelo qual o profissional da educação passa é uma realidade local, mas se encaixa num contexto nacional. Nossa idéia de que a filosofia educacional evolui, acompanhando tendências de vanguarda é ilusória. A reforma da educação brasileira, que culminou na nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996) e nos Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) teve seu início com a Conferência Mundial sobre “Educação para Todos”, em 1990, na cidade de Jomtien, na Tailândia. Interessante notar que o evento foi patrocinado por organismos internacionais tais como o Banco Mundial,o PNUD, a UNESCO e o UNICEF, segundo a professora Ireni Marilene Zago Figueiredo, Mestre em Educação pela Unicamp. Entretanto, o documento final foi assinado apenas por países do chamado “terceiro mundo” ou emergentes: Brasil, Índia, Indonésia, México, Nigéria, Paquistão, entre outros. Pareceu claro, portanto, uma tentativa de apropriação de países com baixos índices de desenvolvimento educacional como cobaias de um modelo internacionalista de educação que, claramente, possui objetivos de dominação e eleição do lucro e do mercado como valores supremos, ainda que subentendidos. É o que vemos quando os PCN’s combatem a repetência escolar, simplesmente com um objetivo subliminar de redução de gastos educacionais.

Outra questão notável é uma educação que se entende de vanguarda, mas possui como gurus autores como Piaget e Vygotsky, que já caíram em desuso. Estudos psicológicos mais contemporâneos, como os de Lacan, ou as análises textuais da filosofia de Derrida e Deleuze ou da antropologia de Bhaba encontram-se anos luz à frente da dupla pedagógica, e seus métodos poderiam ser utilizados.

O descompasso com o mercado de trabalho é outro detalhe interessante. Diz-se que o professor ganha mal, mas não se percebe que há aí um problema de mercado. O capitalismo convencionou computar apenas as horas trabalhadas pelo funcionário em local de serviço para fins de remuneração, ainda que, em alguns casos, como o do professor, a legislação vigente obrigue que a remuneração leve em conta as horas utilizadas em serviço fora. Ora, Nesse sentido, o discurso de mercado vigente diria que o professor da rede estadual, por exemplo, que trabalha 16h por semana e ganha pouco mais de R$ 700,00, “não ganha mal”. O problema, portanto, é que o discurso reivindicatório do professor não acompanha o mercado – sua luta deveria ser pela mensuração e computação das horas trabalhadas em casa para efeito de rendimentos, e não simplesmente de “aumento de salário” por mérito ou outros encantos.

O descompasso com o tempo é outro fator. "Nossa educação é feita em escolas do século XIX, com professores do século XX e alunos do século XXI". Esta foi a grande frase do V Congresso Internacional Educarede, que reuniu cerca de 2 mil professores na capital da Espanha, em novembro de 2009. Talvez aí esteja o motivo da falta de habilidade no debate entre Governo, Pedagogos, Professores e Alunos. Se a história não acompanha a História, um eclipse toma conta do ambiente educacional, a não ser que o sol de um novo dia venha a brilhar.

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