sábado, 12 de dezembro de 2009

Viver a vida no Balneário


Publicado no Jornal Folha dos Lagos em 12 de dezembro e no jornal virtual Área 22 (www.area22.com.br) em 11 de dezembro de 2009.

Temos visto crescer na cidade movimentos de indignação com a Rede Globo, devido à associação feita entre a cidade de Cabo Frio e a violência, na novela ”Viver a Vida”, de autoria de Manoel Carlos. Enquanto Búzios é apresentada como porto turístico de qualidade, Cabo Frio é tratada como refúgio de meliantes e violência.

Recentemente, a ACIA – Associação Comercial, Industrial e Turística de Cabo Frio – dirigiu carta à empresa televisiva, repudiando a posição do autor da novela. Ação semelhante realizou recentemente um radialista local, ao conclamar a população a fazer o mesmo. As atitudes mostram um relativo sentimento de amor à cidade, muito positivo, mas poderiam ser vistas de ângulo diferente: por que o autor da novela possui essa representação tão oposta sobre duas cidades tão próximas?

Não parece sensato acreditar que essas representações do autor de “Viver a Vida” sejam arbitrárias, preconceituosas ou frutos do acaso. Nós, moradores, talvez não tenhamos a noção do retrato que as duas cidades possuem fora dos limites do nosso município. Esse retrato, por sua vez, não está sendo influenciado pela novela: parece que é a realidade violenta do nosso município, invisível para alguns, que, ao contrário, influencia a opinião do autor. Prova disso é que recente pesquisa feita pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, Observatório das Favelas, Unicef e a UERJ, apontou Cabo Frio como a 16º entre 267 cidades brasileiras com o mais alto índice de homicídios na adolescência. Segundo o coordenador técnico de estudo, Ignácio Cano, professor da UERJ, há três municípios do estado do Rio em situação ainda pior do que a capital: Caxias, Itaboraí e Cabo Frio. Ainda segundo o relatório, se a forma de combater a violência não mudar nos próximos sete anos, só em Cabo Frio , 121 jovens não deverão completar os 19 anos. Reportagem sobre a pesquisa foi publicada em 24/07/2009, no Portal In360, da Rede Inter TV.

O comércio, por sua vez, também sofre com uma cidade que possui a identidade violenta. Prova disso é que a própria ACIA, em maio desse ano, organizou movimento de fechamento de portas dos comerciantes locais, que foram às ruas, em protesto contra a violência que sofrem.

Em maio de 2008, por sua vez, explodiu na cidade a violência homofóbica: cinco homicídios em poucos dias despertaram o movimento LGBT para protestos e manifestos.

O Jornal do Brasil, um dos maiores do país, registrou em 23 de novembro de 2008, reportagem nas páginas A2 e A3 – portanto, páginas de destaque do periódico – tratando da alta do uso e comércio de crack nos balneários cariocas, tendo como destaque Cabo Frio. O então delegado Rodrigo Santoro declarou ao jornal que 80% dos homicídios da cidade são oriundos do tráfico. Segundo o ISP – Instituto de Segurança Pública, Cabo Frio teve 49 furtos de carro a mais no primeiro semestre de 2008 do que no mesmo período em 2007, e 50 roubos a mais empreendidos contra transeuntes. 1428 pedras de crack foram apreendidas na região no ano passado, a maioria em Cabo Frio.

Interessante perceber que a Rede Globo tem realizado várias injustiças com reportagens tendenciosas há vários anos, e a população local, com exceções, cala-se. Aumentos abusivos de tarifas de ônibus em Cabo Frio são vistos com passividade, mas a imagem da cidade refletida externamente causa revolta. O problema da “imagem violenta” da cidade é um problema interno, não externo. A associação da cidade ao crime deveria gerar revolta da população com as autoridades, já que, pelo que acabamos de demonstrar, “Viver a Vida” apenas tem colocado nas telas nacionais a realidade estatística e social da nossa cidade, da qual, diante de todo o país, “somos os últimos a saber”, nós, o G.R.E.S. “Inocentes de Cabo Frio”.

Sem falar na gritante diferença de qualidade entre as estratégias turísticas de Búzios e Cabo Frio, enquanto a revolta for com o longínquo PROJAC, as fontes reais do problema ficarão imóveis e inalteradas por essas bandas. Se Búzios está a “Viver a Vida”, Cabo Frio parece ter caído numa “Cama de Gato”. Há possibilidades de escapar dela, mas teremos que arrebentar os barbantes, pois como diz Gonzaguinha “cama de gato/olha a garra dele/melhor se cuidar/no campo do adversário é bom jogar com muita calma procurando pela brecha pra poder ganhar”.

6 comentários:

Clovis Eduardo disse...

A cama de gato cabofriense parece não ter fim.

Morando num bairro que é dividido entre SPA/CF, vejo esse relato constantemente. O tráfico de drogas circula livremente pelo bairro, com suas "motinhas" simulando tiros de fusil (em sua maioria rapazes de menos de 18 anos).

Cabo Frio hoje, por motivos que vão além da corrupção (só pode) está um caos. Estive filmando a passeata promovida pela ACIA no centro da cidade e o que mudou???
NADA.

A cidade continua caótica. O Miolo comercial está ficando igual Alcântara, nojento e tomado pela desorganização. Mendigos disputam com cachorros o lixo. Pedintes profissionais incomodam as saidinhas de banco e as passadas em becos. Fora os furtos constantes.

Mesmo as viaturas estacionadas na calçada não parecem intimidar ninguém.

Esses dias estava conversando com um cinegrafista que a situação financeira de Cabo Frio, protagonisada pela crise do petróleo era algo esperado. Só não poderíamos entender como uma cidade que, mesmo na crise, detém tantos recursos e não consegue resolver os problemas mais básicos de sua sociedade.

Estou para entrevistar uma senhora que a cerca de dois anos teve seu filho de 16 anos assassinado com um tiro na cara na Praia do Forte em Cabo Frio.

Pois é, Praia do Forte!!!

Beth Michel disse...

Caro Rafael,
Creio que tenho uma certa isenção para falar sobre "o que tem Buzios que Cabo Frio não tem" ou vice-versa. Eu moro em Cabo Frio no que podemos denominar de faixa de Gaza local - o final do bairro da Gamboa fronteira com o mal falado Jacaré, digo mal falado porque minha neta morou com o pai durante o último ano naquele bairro, e nunca veio pedir asilo aqui, embora pudesse fazê-lo. Então imagino que há um certo exagero em criminalizar todos os habitantes do bairro, por conta de alguns meliantes (importados) que alí se instalaram. O centro da cidade e outros bairros "nobres" sofrem do mesmo mal, mas como diz o Chico ( Buarque) a dor da gente não sai no jornal. Isto, talvez, para não reduzir a cotação dos imóveis que são alugados para temporada. Meu filho trabalha em Cabo Frio e mora há 3 anos em Búzios, em um bairro afastado do "buchixo" da rua das pedras, e pelo que me comenta a diferença entre Buzios e Cabo Frio se deve muito mais à densidade demográfica do que a indole dos moradores. O Sr.Manoel Carlos com certeza tem como fonte o noticiário que chega à redação da Intertv - sucursal da Globo aqui, mas os atores e equipes ficaram quanto tempo gravando no Balneário realmente!Já se o autor da novela se baseasse no noticiário da Jovem TV , em especial ao programa Cidade em Foco, do Lulacal, talvez mudasse de rumo, mas seguramente seria aos pouquinhos: problemas operacionais... Bem é isso aí: para o bem ou para o mal, estamos todos (Buzianos e Cabofrienses)no mesmo lugar onde ( com muita propriedade e todas as letras) disse nosso Presidente! E se novela mudasse alguma coisa, ia ser uma beleza Viver a Vida - aqui ou alhures. Você já viu novela que termina mla!?
Abração Beth

Tomás Baggio disse...

genial como sempre!

Anônimo disse...

A juventude é geralmente acusada de pivô pela violência em nossa sociedade. Mas também é a mais afetada pela falta de segurança de vida. è a que mais sofre a falta de família e comunidade autenticamente solidária, de moradia,escola, profissionalização, emprego, cultura e lazer, enfim de uma perspectiva de vida digna. Os jovens não são tratados como sujeitos de direitos e dignidade própios. Sabemos que a violência se combate com direitos, por isso fica a pergunta: Quais os direitos da juventude? O que estamos fazendo para mudar essa realidade?

Helena disse...

A Juventude é geralmente acusada de pivô pela violência em nossa sociedade. Mas é também a mais afetada pela falta de segurança de vida. É a que mais sofre a falta da família e comunidade autenticamente solidária, de moradia, escola, profissionalização, emprego, cultura e lazer, enfim, de uma perspectiva de vida digna. Os jovensnão são tratados como sujeitos de direitos e dignidade própios. Sabemos que violência se combate com direitos, por isso fica a pergunta: Quais os direitos da juventude,e o que estamos fazendo para mudar essa realidade?

flaviopettinichiarte disse...

já falei do tema há mais de 5 messess..mas eu moro na faixa de Gase!!!! abraços!!!