sábado, 5 de dezembro de 2009

(Muitos) Pingos de chuva

Publicado no Jornal Folha dos Lagos em 5 de dezembro de 2009.


Roberto da Matta, um dos maiores antropólogos brasileiros, afirma que, na pesquisa científica, o pesquisador deve estar preparado para os “pingos de chuva que caem do céu sem que o queiramos”. A idéia é valorizar os dados que surgem da realidade social como surpresas, em geral, desviando o foco inicial do trabalho.

Os pingos de chuva não são, entretanto, privilégio da pesquisa etnográfica. Nossa sociedade brasileira, bem como sua versão reduzida em Cabo Frio, não escapam a essa reflexão. Pingos de chuva não nos faltam, especialmente nesses dias em que muitos deles invadem nossas ruas (que o diga o Parque Burle e o Manoel Corrêa) alagando as vias nas quais os Royalties não chegaram – supondo que eles tenham chegado a algum lugar.

Além desses pingos de chuva reais que nos assolam (e também aos catarinenses e paulistas), temos os pingos de chuva sociais e políticos – as boas surpresas que alteram os planos anteriormente estabelecidos. O Fórum dos Conselhos Comunitários de Segurança da Região dos Lagos, realizado ontem, surpreende positivamente o silêncio que vigorava até então, em relação aos casos extremos de violência na cidade nos últimos tempos. Esperamos que tenha dado frutos. O “mensalão” do DEM no Distrito Federal e do PSDB em Minas Gerais foi uma boa surpresa (será que foi surpresa?) para as expectativas petistas de manutenção do poder federal, ao estender o mar de lama antiético à oposição. Obviamente, não foi “surpresa” quanto a esquemas fraudulentos que rondam as administrações públicas do país, com duas exceções – surpreendeu o volume de dinheiro envolvido e a distribuição do esquema por variadas secretarias municipais e diferentes partidos políticos, algo talvez “inédito” nas apostilas do crime governamental brasileiro.

A instalação da CPI das sentenças judiciais eleitorais, presidida na ALERJ pelo Deputado Paulo Ramos (PDT) também foi outro pingo de chuva que caiu do céu sem que muitos prefeitos do Estado quisessem – esperamos que o instrumento não termine em pizza e sirva para averiguar suspeitas absolvições.

Na área eleitoral, para 2010, não deveremos ter tantos pingos assim – o quadro parece meio que definido, mas é possível ainda que um ou dois pingos, na área de candidaturas federais, caiam na nossa cidade, isso sem falar nos pingos falsos – quem tentou negar candidatura para “surpreender”, não surpreendeu: nem o pingo caiu, nem a população caiu na conversa. No mais, “surpresa” não é palavra que rime com nada nas especulações para 2010.

Entre pingos e pingos de chuva, reais ou sociais, vamos caminhando, ora alagados, ora enxutos, mas quase sempre com nossos guarda-chuvas furados. O que regozija é ver alguns que, até então, acreditavam num verão de rachar, surpresos com os pingos que caem do céu – terão que substituir a sunga e os óculos de sol pela capa de chuva, se quiserem se proteger, ou pelo rodo, se quiserem trabalhar.

5 comentários:

Fábio Morais disse...

Com tantos pingos, porque será que só não chove na nossa horta?
Parabéns pelo texto. Brilhante como sempre.

Clovis Eduardo disse...

Brilhante apanhado da Chuva nos últimos dias. Recitando DaMatta e tudo.

O autor ainda teve a coragem de dizer no Twitter que não estava muito inspirado quando escreveu o artigo.

Rafael, esses dias estava comungando com alguns amigos e críticos da partilha dos Royalties e indaguei o que aconteceria na Bacia de Campos se acontecesse um desastre ambiental, será que "nossos" municípios estariam aptos a minimizar os estragos com as medidas compensatórios que receberam a tantos anos?

Ecce Homo - Soli Deo Gloria disse...

Viva o Pingo de chuva...
Viva da Matta...
Viva o Peçanha...
Viva Cabufa..hehhehe..
"Textão" irmão...valeu....a paz.

Beth Michel disse...

Sabe Rafael !? Você inaugurou uma nova tradição da familia Michel/Losekann. Todos nós eramos do Clube Odeio Segundas Feiras ( Garfield ) até que eu comecei a enviar para minha irmã (RJ)e minhas primas (RS)as suas crônicas. Eu sei que elas podiam ler diretamente no blog, mas virou um ritual simbólico de união e reação contra o "mal das segundas". Agora temos todos uma espécie de comichão intelectual e aguardamos as segundas com mais otimismo e depois a constatação que a vida inteligente não desapareceu no fim de semana apesar dos " faustões e didis".
Valeu! Agradeço em nome da familia, daqui e da França ( quando tenho tempo traduzo e mando para eles também)!
Beijos Beth

Helena disse...

Ainda temos que usar muitos guardas-chuvas para nos proteger da fome, injustiças e violência.