sábado, 21 de novembro de 2009

HERÓIS E VILÕES


Publicado no Jornal Folha dos Lagos, em 21 de novembro de 2009


Comemorando ontem o Dia da Consciência Negra, cabe lembrarmos de outros dois fatos que povoaram os noticiários nas últimas semanas, a saber, o caso da aluna da expulsa da UNIBAN e a demissão de 700 contratados da Prefeitura de Cabo Frio.

Aparentemente, esses dados nada tem a ver uns com os outros. Porém, cabe-me recorrer a um dos maiores antropólogos da contemporaneidade, Clifford Geertz, e acompanhar sua reflexão. Ao analisar discursos de Lévi-Strauss, Geertz entende que os maiores problemas da sociedade não estão no embate entre etnocentrismos, racismos, globalizações que oprimem as culturas ou extremismos culturais que as fechem em si mesmas. Para Geertz, o grande problema histórico ainda é vivermos numa sociedade onde dividamos todos os fatos e pessoas em heróis ou vilões.

A idéia de Geertz não é justificar racismos ou ações de opressão contra culturas frágeis. Ao contrário, seu objetivo é auxiliar movimentos sociais contemporâneos, como o movimento negro, LGBT e outros a adquirirem uma essência cada vez mais irrefutável, para que possam alcançar seus direitos sem possibilidades de serem atacados como meros "repetidores da história".

A questão negra no Brasil, hoje, merece a aplicação desse pensamento para se desenvolver. O estabelecimento de cotas raciais em universidades e a possibilidade da inserção de outras políticas públicas semelhantes na sociedade, como as cotas para negros em programas de televisão (medidas às quais, hoje, posso dizer, sou favorável) mostram que o movimento negro encontrou seu lugar e se articulou pelos seus direitos. O pensamento de Geertz, porém, ajudaria a não dispersar a proposta – se os negros foram vistos como vilões da história, no passado, pelos colonizadores, não parece justo que, hoje, negros tenham a mesma posição diante de povos e etnias semelhantes. Seria simplesmente repetir o mesmo sentimento, mudando apenas os personagens. Apesar do preconceito persistir nas escolas e nas ruas, aqueles marinheiros portugueses já morreram, e suas chibatas, com a luta do grande João Cândido, que em 2010 faria 100 anos, já apodreceram. Negros e portugueses não são, hoje, nem heróis nem vilões da história – são povos que buscam seus direitos.

No caso da menina expulsa da UNIBAN, há reflexão semelhante. Ela tornou-se a nova heroína nacional, e os alunos da UNIBAN, taxados de retrógrados, fascistas e moralistas, os vilões. Em primeiro lugar, existem alunos e alunos na UNIBAN, como em qualquer universidade – nem todo mundo estava no corredor, nem todo mundo xingou. Em segundo lugar, parece que só a UNIBAN possui mentes retrógradas, que às vezes estão nas cabeças daqueles que escreveram contra aqueles jovens ou em nossas universidades locais, seja na sala de aula ou na dos professores...em terceiro lugar, o assunto ainda está muito mal explicado – recuso-me a acreditar que, num ambiente machista como o nosso, uma menina passaria pelo corredor com um vestido curto e seria xingada pelos rapazes, ao invés de cortejada ou "cantada"! É muito difícil imaginar que um vestido curto tenha causado uma reação ofensiva: há um hiato social nesse caso. Nada justifica a expulsão da aluna, nem a reação ofensiva dos demais alunos, mas é muito mais fácil usar os alunos da UNIBAN como vilões antiquados, porque nós mesmos precisamos auto-afirmar a modernidade que não temos. Foi muito mais fácil definir a menina como heroína, mártir da liberdade feminina, causa que nós defendemos tanto, mas que quase nunca conseguimos praticar com nossas esposas e namoradas. Fácil criar heróis e vilões para aliviar nossos próprios defeitos.

Finalizando, no caso das demissões da Prefeitura de Cabo Frio, cabe também considerações. O Governo não pode ser vilão por ter cumprido uma ordem judicial, diante de uma situação de sobrecarga de contratos que vem de muitos anos. Porém, também não pode ser considerado herói, porque não teve carinho, zelo pelo funcionário, nem habilidade política para demitir aos poucos, aliviando a carga de pressão da opinião pública. Mostrou desleixo, mais uma vez, com a “gente” para quem diz governar, ao comunicar as demissões por meio de um papel colado na parede.

Nem melhor, nem pior, apenas diferente – nem heróis, nem vilões, apenas humanos. Quando aprendermos (e eu me incluo sobremaneira nisso) que as atitudes são boas ou ruins; as ações é que são heróicas ou tirânicas, mas as pessoas, na verdade, são um complexo que une essas duas dimensões, aí sim, aprenderemos o que, de fato, é o respeito pela pessoa humana, a democracia, o amor, a aceitação da cultura alheia – seremos, de fato e sem discursos demagógicos, gente.

Um comentário:

Anônimo disse...

Virar gente, num governo que diz valorizar gente... É melhor não ser isso. ;-]