quarta-feira, 7 de outubro de 2009

SANGUE NAS VEIAS


Publicado no Jornal Folha dos Lagos em 6 de outubro de 2009


O Ministério da Educação cancelou a prova do Enem (Exame Nacional de Ensino Médio), que seria realizada no último fim de semana, após denúncia feita pelo jornal "O Estado de São Paulo" sobre o furto de uma prova com gabarito, como confirmou o Ministro da Educação, Fernando Haddad, por telefone a um programa de televisão. Mais de 4 milhões de pessoas saem prejudicadas com o cancelamento da prova.

A fraude nos processos seletivos do mundo educacional brasileiro, porém, não é novidade. Ela é como um sangue que corre pelas veias acadêmicas, e seria hipocrisia isolarmos esse caso.

Em 2002, o vestibular da Universidade Federal do Acre foi fraudado por um grupo que chegou a incluir sonífero na comida dos candidatos que não participariam da corrupção, em suas refeições, num hotel local. O delegado de Falsificações e Defraudações de João Pessoa, Antonio Magno Toledo, empreendeu investigação nesse ano e concluiu que quadrilhas especializadas em fraudar vestibulares movimentam pelo R$ 10 milhões por ano na Paraíba. A própria faculdade de ciências médicas da Paraíba sofreu fraude em seu processo seletivo de junho deste ano.

O ensino Fundamental também entra na linha da fraude: O prefeito de Nova Iguaçu está respondendo a um processo em que é acusado de citar alunos da rede privada do município, que recebem bolsa da prefeitura, como se fossem de escolas públicas, a fim de aumentar as verbas do antigo Fundef.

A Pós-Graduação, com seus pomposos cursos de Mestrado e Doutorado, por exemplo, também entra no pacote. Em 2001, um jornalista moveu processo contra um mestrando da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) pelo plágio na sua dissertação, aprovada com louvor por toda a banca. A comissão processante da Universidade só foi instaurada em 2005 e o jornalista ganhou o processo.

Isso sem contar nos conhecidos casos de provas de mestrado e doutorado, onde estilos de seleções como análise de currículos, análise de projetos de pesquisa e entrevistas garantem um caráter extremamente subjetivo aos processos seletivos, colocando a técnica em segundo plano.

Há muitos anos discute-se o fim do vestibular, levando em conta o aproveitamento do rendimento dos alunos ao longo dos ensinos fundamental e médio, considerando, assim, seus esforços por cerca de 12 anos, ao invés de pesar apenas as possíveis falhas e fraudes de um momento. Há possibilidade de corrupção também nesse sistema? Lógico. Mas palavras de amor ditas ao longo do tempo são bem mais difíceis de serem corrompidas do que o erro de um momento. Dessa forma, com este tipo de processo seletivo, optaríamos pelo menor risco de fraude, ao invés de buscarmos a perfeição acadêmica, inexistente e utópica.

A fraude corre pelas veias da educação. Como estimular agora os alunos do ensino médio a prestarem vestibular, a estudarem para o ENEM? Eles foram feridos uma vez, dificilmente terão forças para tentar uma segunda vez. Sim, há a possibilidade do sistema mudar – ele mesmo reconhece suas falhas de caráter, e já mudou muitas vezes ao longo do tempo: ele está disposto a mudar. Porém, junto com essa mudança, é possível readquirir a confiança no sistema educacional e principalmente no ENEM, pois a falha de um momento não deveria manchar toda uma história. Aí sim entra o perdão, ou pela necessidade dos alunos, ou pelo amor. Eu, por incrível que pareça, confio no amor.

Um comentário:

flaviopettinichiarte disse...

gostei do título da Matéria,,"sangue nas veias" ..cuidado com o plágio, tá na modda precesar blogs!!! grande abraço..
PS: falando da matéria ..o colegio Miguel Couto nunca me entregou o Diploma do 2º grau...