sexta-feira, 3 de abril de 2009

ZOIÕES

Eu já tinha um outro texto, chato pra cacete, quase pronto. Mas é preciso deixar o sentimento social falar mais alto que a análise social, especialmente ao ouvir uma música ontem, que me impulsiona, mais uma vez, a eleger o sentir à frente do pensar, chamada, irônica ou salutarmente, “no meu coração”. Decidi então que não poderia passar mais uma semana sem falar de um assunto crucial, especialmente depois dos assassinatos que vitimaram membros da classe musical da cidade.

Zoião e Allan são mais duas vítimas de uma cidade violenta, denunciada por uma imprensa que, não por culpa dela, mas devido à estrutura social e cultural da cidade, não chega ao dia-a-dia da grande parcela da população. Além disso, há “um coma dentro da cidade, onde o silêncio me faz sofrer”: o silêncio falante das autoridades policiais, que a todo o momento pregam a diminuição da criminalidade; um coma de informações silenciosas, já que Cabo Frio encontra-se no relatório da recente CPI das Milícias, da ALERJ, embora nenhum crime na cidade, quando investigado, coloque sob suspeita os milicianos. Não se toca no assunto, e a culpa “deve ser sempre dos bandidos e favelados”. Não quer dizer, por outro lado, que a culpa seja sempre das Milícias. Mas excluí-las, sempre, do hall de suspeitos, parece atitude corporativa e tendenciosa.

A morte é a componente certa da vida. Mas não é fácil, também para mim, ter estado com um cara no sábado e saber que ele morreu dias depois. Vários zoiões, conhecidos ou não, são cegados por assassinatos, de um lado; de outro lado, outros tantos zoiões se tornam cegos diante de uma sociabilidade violenta, que não consegue explicar a si mesma: o que faz Cabo Frio ser assim? Explosão demográfica? Desafogamento do tráfico metropolitano para o interior do Estado? Há um submundo da violência, que só conhecemos nas páginas de jornal, páginas estas que, por sua vez, não chegam aos zoiões da população periférica, ou não fazem parte de sua rotina de leitura.

Por outro lado, a classe média urbana, que lê os jornais, talvez viva um “fazer, falar, esperar vir de alguém”, como denuncia a canção. Há uma preocupação generalizada com a temática da violência urbana, mas ainda não há estudos sociológicos sobre o tema. A configuração e as estatísticas da violência na cidade; o mapeamento e estudo da história de formação dos bairros e áreas violentas; a transparência de dados oficiais e um trabalho de campo, antropológico mesmo, no sentido de participar da vida do morador da favela para entender suas motivações, são atitudes urgentes.

Por outro lado, deslocar a origem da violência urbana do estigma da favela é outra necessidade: não temos violência só porque temos favelas ou tráfico. Há muitos outros sub-fatores (desemprego, cultura) e sobre-fatores, como, repito, as Milícias. É preciso abrir os zoiões para esses temas, deslocando a velha e comum análise que associa mecanicamente a violência à pobreza, como ensina Alba Zaluar.

A classe artística promoverá um show pela paz nesta terça-feira, às 20h, no Teatro Municipal. Há quem diga que é um tipo de ação que não muda nem resolve nada. Discordo. Na sociedade fragmentada em grupos sociais heterogêneos, cada um usa das suas armas, e a classe musical estará fazendo o que pode pela paz. Cabe aos pesquisadores e à população o estudo da cidade e a fiscalização das autoridades policiais e políticas. Com os zoiões bem abertos.

2 comentários:

Octavio Perelló disse...

Rafael, não conheci as vítimas de sua crônica-denúncia, mas sei de muitos zoiões fechados. O show que será promovido é a mais legítima reação ao ocorrido: lembrar um companheiro, denunciar a sorte de um companheiro, usando as ferramentas que o seu grupo utilizava. O resto são palavras vazias de bocas cheias e zoiões míopes. Mais uma vez, parabéns!

helena disse...

A violência se combate com direitos, por isso a pergunta: quais os direitos do cidadão que precisamos garantir para que eles tenham uma vida digna e segura?