segunda-feira, 6 de abril de 2009

ARTIGO...

Sucupira ou Babel ?
Publicado no Jornal Folha dos Lagos em 5 de abril de 2009




Os recentes episódios envolvendo a casa de Wolney, a legitimidade do Prefeito, a eleição na ACIA e a violência na cidade, todas elas, desembocam em imagens interessantes, que merecem nossa atenção.

Os três casos possuem algo em comum: primeiro, a metodologia do boato, chamada por Milanesi de inconficiência: se o fato aconteceu, alguém viu, e contará para todos; se o fato não aconteceu, ele será inventado, e contado a todos da mesma maneira. Em segundo lugar, o princípio da pessoalidade, denunciado por Rosane Prado, já que, por aqui, as informações válidas são oriundas de pessoas e declarações verbais. Há ainda um terceiro elemento: a confusão de informações. Como as informações na cidade são oriundas da inconficiência/boato ou da verbalidade pessoal, acontece o cruzamento de dados contraditórios sobre o mesmo assunto, gerando confusão social.
Os dois primeiros atributos se traduzem na representação social da cidade de Sucupira, sucesso de Dias Gomes na novela “O Bem Amado”. A cidade, onde “coisas estranhas aconteciam”, era regida pela lógica dos boatos, do sobrenatural e da pessoalidade.

O terceiro atributo encontra-se na representação social da cidade de Babel, imagem simbólica de uma urbanidade cosmopolita que, porém, ficou no nosso imaginário como arquétipo da confusão: cidade onde ninguém se entende, onde cada um fala sua língua.

Nossa cidade vive um ambiente social que mistura as representações de Sucupira e de Babel.

Na questão da legitimidade do Prefeito, somos Sucupira: em cada esquina, um cidadão diferente fala que “já está tudo certo” ou ainda que “o juiz falou que vai decidir assim” e todos acreditam: o argumento verbal e pessoal sempre vence e ninguém sabe ao certo quem é o Prefeito, algo extraordinário, extremamente sucupirano. Somos Babel, pois cada lado dá a certeza absoluta da legitimidade. Já ouvi afirmações de decisão favorável e contrária do mesmo Tribunal, sobre o mesmo processo...


A eleição da ACIA, pelo fato de ter sido anulada e de ter havido incerteza sobre se ocorreria ou não na nova data estabelecida, já mostrou seu lado Sucupira de ser. A confusão de informações, sobre atas, pagamentos de mensalidades e votações duplicadas, acende a chama da representação coletiva de Babel

Na casa de Wolney, temos também boa articulação entre as duas representações sociais. De quem é a casa? O acervo é mais importante que a casa? Onde está a verdade? De toda sorte, cabe concordar com a análise do amigo Tomaz Baggio: Guaral é um bom (talvez o único possível) pacificador para a questão.


Quanto à violência na cidade, somos Babel: as autoridades policiais pregam a diminuição da criminalidade ao mesmo tempo em que Cabo Frio encontra-se no relatório da recente CPI das Milícias, da ALERJ, embora nenhum crime na cidade, quando investigado, coloque sob suspeita os milicianos. Não se toca no assunto, e a culpa acaba sendo sempre “dos bandidos e favelados”.


O fato é que, de uma forma ou de outra, em qualquer dos casos, há uma mesma raiz social representativa: as figuras de Sucupira e de Babel. E enquanto Odorico Paraguaçú não mudar de cidade, ou o Deus hebreu não mandar fogo sobre Babel, discussões pontuais não surtirão efeito se não forem realizadas à luz destas imagens culturais cabo-frienses, reconhecendo que, como afirma Bosi, elas são construções coletivas, ponto de vista do grupo. Somos o que queremos ser.

Um comentário:

flaviopettinichiarte disse...

Sucupira é acreditar que o Senhor Guaral vai resolver algo pelas suas Próprias mãos..Não se faz cultura sem participação Popular..cadê O conselho Municipal De Cultura?? cadê o chamado às partes interesadas?? Então Querido Peçanha??? ainda acreditamos em mais um Boato..ou estamos e vc tmb?? em uma Babel!! Só que eu acho que existem 2 Realidades.. a babel que esta do outro lado da Praça da Prefeitura...mas dentro dela tudo o mundo fala a mesma língua!! nunguem vai soltar o queijo..isso eles tem bem Claro..e o Senhor Guaral é mais um desse lado..Quero Muito me equivocar..mas não é Escolhendo a Dedo que se faz uma Cultura de Uma cidade..sucupira ou não!! Abraços!!!