ESPECIAL ORÇAMENTO PARTICIPATIVO 2018

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segunda-feira, 30 de março de 2009


A Crise e o Mito Social
Publicado no Jornal Folha dos Lagos, em 29/03/09


Analisando nossa sociedade urbana cabo-friense, ouvimos pelas ruas um assunto dominante: a crise econômica mundial. Diferente do que vemos nos jornais, ela não é debatida a partir de personagens e fatos internacionais, mas sim na micro-perspectiva do seu reflexo na realidade local: é a queda no repasse dos royalties; é a dificuldade de obter uma portaria na Prefeitura; é a falta de emprego no comércio local.

Em programa da Rádio Litoral, na manhã de quinta-feira, o apresentador relatava declaração do Prefeito, segundo a qual até a próxima terça-feira, cerca de 700 funcionários da Prefeitura de Cabo Frio seriam demitidos, por determinação do Ministério Público.

Em suma, a questão é uma só: independente do motivo, o desemprego é o grande problema de Cabo Frio. Cabem, portanto, reflexões.

Primeiro, a crise é usada como mito justificador de atitudes empregatícias. O mito justificador é utilizado para dar respostas confortáveis, embora falsas, a uma população. Era o caso da figura do demônio na Idade Média, como vemos na obra “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, onde monges acusam o diabo é de uma série de assassinatos, a fim de ocultar o verdadeiro autor. Por aqui, patrões usam a crise como desculpa (mito) para realizar diversas demissões, mesmo podendo cortar gastos em outros setores.

Em entrevista a Folha dos Lagos, no dia 24 deste mês, o Secretário de Desenvolvimento de Cabo Frio afirmou que há esboço de projeto de Lei para gerar incentivos fiscais a empresários que desejem instalar-se em Cabo Frio , gerando empregos. Afirmou ainda que há tendência de ampliação dos empregos no aeroporto da cidade, com a chegada dos aviões de carga, a partir do final desse mês.

É preciso, primeiramente, aplaudir a declaração do Secretário, concreta e objetiva, em relação ao problema do desemprego em Cabo Frio, fato raro . Por outro lado, cabe à população cobrar o andamento e a efetivação das duas promessas. Está aí uma ótima pauta para o Projeto Cidade Viva: partir de projetos e informações já apresentados pela municipalidade na imprensa. Isso aceleraria as discussões e resultados.

Este é o problema da empregabilidade em Cabo Frio : dependência de portarias em órgãos públicos, acentuando o clientelismo; dependência do emprego temporário no comércio, embora sejam visíveis os esforços contra a sazonalidade; mercado inflado com o nivelamento da formação universitária – dezenas de profissionais vomitados anualmente num mercado, onde as poucas possibilidades de destaque são cursos fora da cidade ou a indicação de “amigos”; precariedade da formação do trabalhador, o que pode vir a ser minorado, mas não plenamente resolvido, com a força do IFF.

A palavra grega krisis (de onde vem “crise”) diz respeito a situações de transição, estágios intermediários, antes de momentos de melhora ou de piora social. Se quisermos escolher um próximo estágio melhor, é necessário discutir e empreender ações sociais concretas, rumo a uma empregabilidade real e efetiva, já.

terça-feira, 24 de março de 2009

Boas (?) Novas do Legislativo



---------- PROJETO DE LEI Nº 022/2009 - PREFEITO MUNICIPAL DE CABO FRIO - Institui o benefício de auxílio-alimentação, a ser concedido em pecúnia, aos servidores ativos da Administração Direta e Indireta do Município de Cabo Frio, na forma que menciona.




COMENTÁRIO: Em tempos de crise, a classe dos Servidores Municipais de Cabo Frio agradece...mas não esquece a necessidade da revisão salarial!




---------- INDICAÇÃO Nº 053/2009 – VER. JOSÉ RICARDO CARVALHO GONÇALVES
ASSUNTO: Solicita ao Exmº Sr. Prefeito Municipal a construção da usina de reciclagem de papel.




COMENTÁRIO: Em tempos de preservação ambiental e aquecimento global, a proposta é muito boa. Seria legal se os papéis reciclados fossem utilizados obrigatoriamente nos órgãos da administração pública municipal.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Séries...

DA SÉRIE "GRANDES FRASES DA TV BRASILEIRA"




Primeiro uma coisa que eu quero dizer que responder. Você é um cara bom sabe como chegar. Chegar é importante, por que chegar, importante ser do jeito que você faz. O jeito que você faz é o jeito de saber. Parabéns!




(Eri Johnson, ator)






"O Obama é igual O.B. - está no lugar em que todo mundo queria estar. Mas na hora errada.''




(Ceará, humorista do programa "Pânico na TV'')







DA SÉRIE "coisas estranhas que vemos pelas ruas de Cabo Frio":


1) Carro parado em frente à Tratoria do Assis com o adesivo "DR. CARLOS VICTOR 2010", nas cores azul e amarelo



2) Muro da Escola Elza Bernardo com uma pixação do Comando Vermelho "cancelada" por uma outra pixação azul com o dizer "terceiro comando"



3) O bar "sobrinha doida", no Braga, provavelmente inspirado no "Tia Maluca", do canal



4) O nome do Estádio "O Correão" apagado dos muros para dar lugar ao título "Estádio Municipal", embora nas placas indicativas o primeiro nome ainda apareça...



E VOCÊ, VIU ALGO ESTRANHO POR AÍ?

quinta-feira, 19 de março de 2009

É SUCUPIRA !!


Como havíamos adiantado em nota anterior, de fato, a eleição para a nova presidência da ACIA foi anulada. Eis a notícia:



Jornal de Sábado


Data de Publicação: 19/3/2009

17:49

Caderno: Direto da Redação


Chapas se desentendem e eleição da Acia é cancelada

Vanessa Campos - Jornal de Sábado


Marcada para acontecer nesta quinta-feira, dia 19, a eleição da Associação Comercial, Industrial e Turística de Cabo Frio (Acia) foi cancelada por volta das 15h, após haver duplicidade de voto de uma empresa associada e desentendimentos entre as chapas concorrentes. O presidente da Acia, Adelício José, lamentou o ocorrido e preferiu não divulgar o nome da empresa. “Estava ocorrendo tudo normalmente até que duas pessoas pertencentes a esta mesma empresa votaram, uma pela manhã e outra pela tarde, atitude que foi logo percebida pelos fiscais”, afirmou ele. Segundo a Assessoria de Imprensa da Acia, após os fiscais perceberem a irregularidade, as chapas se reuniram, porém, não houve acordo sobre novas medidas para direcionar a eleição. A chapa 3 – “Nova Força”, encabeçada pelo candidato José Martins, não aceitou que as propostas das demais chapas, levando à comissão eleitoral a anular o pleito desta quinta-feira. De acordo com a Assessoria da Acia, até às 15h, quando foi cancelada a eleição, 187 pessoas já haviam votado. Ainda não há uma nova data para a eleição da Associação.

UMA NOTA (comercial!)



---------- Zé da Picanha e Dirlei (com sua inseparável agenda negra) conversavam animadamente na Rua Major Belegard, ontem à noite. Qual seria a pauta?





---------- Por falar nisso, a Chapa 3, encabeçada pelo referido Zé, alugou a loja térrea ao lado do prédio da ACIA para instalar seu comitê eleitoral. Parece eleição de Prefeito...





---------- No mesmo comitê da Chapa 3 (Zé da Picanha), hoje à tarde, estava presente o ex-Prefeito de Búzios, Toninho Branco. Considerando que o referido cidadão anda mais em Cabo Frio que na Armação (sem duplo sentido), é bem capaz do jovem senhor ser membro da ACIA como "comerciante residente"...





---------- Notícia não oficial acaba de chegar, citando que a eleição da ACIA, marcada para o dia de hoje, foi anulada. Teria a ver com algum problema de atas da instituição ou abuso do poder econômico nas campanhas???



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sexta-feira, 13 de março de 2009

MIGALHAS...



---------- A eleição da Liga das Escolas de Samba de Cabo Frio se aproxima e já há duas chapas articuladas: uma, encabeçada por João Gomes, ex-presidente da Em Cima da Hora e membro da Diretoria da Liga. A outra, encabeçada por Jorginho Mamaco, ligado à Flor da Passagem. Há uma articulação ainda nas entrelinhas para que membros da Império encabecem uma chapa também.


---------- No dia 19 a ACIA realiza sua eleição. Há 4 chapas, mas sem dúvida, a forte candidata é a Chapa 3, encabeçada por Zé da Picanha, com a misteriosa vice-candidatura de Walmir Porto, que lançaria chapa própria, mas abdicou para apoiar a Chapa de Zé. Hoje houve uma semi-discussão radiofônica entre o atual Presidente Adelício José e o candidato Zé da Picanha, a respeito de uma Ata apresentada por Zé, com supostas irregularidades, embora a mesma não estivesse assinada pelo atual presidente, que citou ainda cartas recebidas, endereçadas à sua pessoa, contando boatos, sem assinaturas. O clima esquentou.





---------- As duas eleições trazem uma mesma mensagem: como diria Emanuel Monier, "tudo é política, ainda que a política não seja tudo", mas nesse caso, no mau sentido. Fica claro que algumas candidaturas, tanto na eleição da Liga quanto na ACIA, refletem braços de articulação política do atual Prefeito Marquinho Mendes e do ex-Prefeito Alair Corrêa: é o poder político querendo estender tentáculos nos movimentos sociais (são movimentos sociais?). Algumas candidaturas, porém, deixam em aberto se há ou não um "braço político" por trás, no bom (ou no mau sentido). É esperar pra ver.




---------- O movimento Estudantil verdadeiro de Cabo Frio - ou seja, nem aquela ala submissa ao Governo e suas Entidades estranhas, nem aquela que diz se opôr a um Governo que construiu - teve uma vitória: a Prefeitura ouviu as reivindicações dos alunos, pais e professores do Colégio Rui Barbosa, no embate contra o Secretário de Educação Paulo Massa, para a manutenção dos tempos de Sociologia e Filosofia sem prejuízo das atividades físicas a serem exercidas no contra-turno. Com a intercessão do Presidente da Câmara Municipal, Alfredo Gonçalves, e de outras pessoas e entidades ligadas ou não ao atual Governo, o desgastado e insistente Secretário de Educação, Paulo Massa, foi derrotado em sua tentativa de extinção do contra-turno, germe da tão sonhada e propagandeada escola de tempo integral.




---------- Agora é a Escola Elza Bernardo, no Jardim Esperança, que se movimenta para reivindicar à Prefeitura melhores condições de ensino. Será que veremos mais declarações estapafúrdias do digníssimo Secretário? Será que veremos todos, novamente, por bom senso, discordar de suas posições e deixá-lo mais isolado ainda?




---------- Paulo Massa vai entrando num caminho semelhante ao de Milton Alencar Jr., um desgaste político e temporal. Basta ouvir pais, professores e alunos para confirmar. Parece chegada a hora de uma mudança de verdade, de novos ventos para a Educação de Cabo Frio, sem que para isso concordemos com o manejamento do referido senhor para uma sub-secretaria, ou ainda, com a contratação de parentes para preencher sua vaga, como vem acontecendo nas últimas reformas do secretariado municipal.




---------- A pergunta que se fazia, quando se questionava a saída de Milton Alencar Jr. da Cultura era: se não é Milton, quem será? Entrou Guilherme Guaral, uma ótima resposta. No caso de Paulo Massa, as respostas são muitas, até porque não precisa ser um ás da educação para superar o desgastado senhor...




---------- O Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo de Cabo Frio encontra-se com seu processo de regularização parado em Brasília, no Ministério do Trabalho e Emprego. Os sindicalistas buscam ajuda superior (ainda que não divina) para agilizar o curso do procedimento e prontamente começar a atuar na articulação dos funcionários da Casa, de forma independente e democrática, diferente do que temos visto em relação a outros sindicatos da cidade...




---------- Por Falar em Colégio Rui Barbosa, vem novidade no leque renomadíssimo de professores da Instituição. O Rui receberá, em breve, um reforço de peso. Literalmente. O Bar do Jair que se cuide!!!
---------- O Secretário-Geral da CNBB, Dom Dimas, fez declarações à Folha de São Paulo hoje (texto abaixo) seguindo linha semelhante às críticas do nosso artigo sobre o caso, publicado em 10 de março neste Blog. Sinal que não somos tão loucos ou hereges, como pensam alguns, nem que a voz de um Bispo é tão perfeita e infalível, como dizem outros. Fica bem claro que há pessoas que, pensando seguir regras e preceitos divinos, esquecem da compaixão pelo próximo. Colocar a letra acima do espírito é cometer o mesmo erro dos que mataram o Cristo historicamente; mostra frustração e vontade de poder, vontade de mostrar uma autoridade que não existe, uma autoridade que não rege, nem altera mais a vida das pessoas, como na Idade Média. Dom Dimas, Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro, vem se destacando na CNBB desde maio de 2007 e é o mais forte nome para a próxima presidência.
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NOTÍCIA

CNBB desautoriza iniciativa de bispo sobre excomunhão

Ainda que tenha tentado preservar o arcebispo d. José Cardoso Sobrinho, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desautorizou a iniciativa do arcebispo de Recife e Olinda de anunciar a excomunhão da mãe da menina de 9 anos submetida a um aborto na semana passada e da equipe médica que participou da interrupção da gravidez. A menina, estuprada pelo padrasto, estava grávida de gêmeos.

O secretário-geral da CNBB, d. Dimas Lara Barbosa, disse que a mãe da menina não está excomungada, pois agiu sob pressão e com o objetivo de salvar a vida da filha. "Não temos elementos para dizer qual médico está excomungado e qual não está. Depende do grau de consciência de cada um", disse ainda d. Dimas. Segundo o secretário-geral, estão excomungados somente os profissionais "conscientes e contumazes" na prática do aborto.

Durante entrevista coletiva, foi distribuído um documento sobre excomunhão, assinado pelo assessor canônico da CNBB, padre Enrique Pérez Pujol, que destaca o fato de que a punição não deve ser aplicada em meio a uma polêmica. A afirmação de d. José Cardoso Sobrinho sobre a excomunhão da mãe e dos profissionais envolvidos no aborto foi feita um dia depois da interrupção da gravidez.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

terça-feira, 10 de março de 2009

ARTIGO (gigante...)

Bispos, Abortos e Estupros



A grande polêmica dos últimos dias tem sido a querela entre o Bispo de Olinda e Recife, Dom Carlos Sobrinho, e a questão do aborto legal da menina de 9 anos. Não poderíamos deixar de nos pronunciar sobre o caso.



Em primeiro lugar, a questão da Lei da Igreja. A instituição religiosa, como toda instituição que participa de uma sociedade democrática, tem o direito de incluir ou excluir membros. Não fosse assim, o Clube Tamoyo, por exemplo, não teria direito de excluir os sócios inadimplentes nem de proibir sócios de utilizarem certos trajes. A liberdade constitucional possui como limite as regras internas dos grupos sociais legalmente constituídos, portanto, a Igreja tem o direito de excluir ou incluir membros, não entrando no mérito a história eclesiástica e o mau comportamento de muitos Bispos e Padres. Se o comportamento corrupto de uma parte do Clero Católico, bem como a história da Igreja, possuidora do absurdo da inquisição, fossem argumentos para tirar da Igreja esse direito de escolha dos membros, o judiciário brasileiro também não pode punir; os Vereadores não podem fazer leis; os Prefeitos não podem governar, nem a PM poderia prender, porque são tanto ou mais corruptos que essa parcela do Clero Católico, sem contar a história dessas instituições, recheada de crimes e mortes injustas, supondo que algum crime ou morte seja justo.



Em segundo lugar, a regra de excomunhão da Igreja por motivo de aborto tem uma lógica moral. Levando em conta que o atentado à vida é algo gravíssimo, na verdade, o que há de mais grave para a Teologia Moral Católica, é lógico que haja exclusão do membro por esse motivo. Porém, no meio dessa argumentação, surge uma série de questões:



1) Deve-se refletir sobre o próprio mecanismo da excomunhão. Ele exclui a participação nos Sacramentos – comungar, ser batizado, etc. - mas não impede que o fiel participe das Missas e atividades da Igreja. O fato problemático foi ver um Bispo estufando o peito para declarar que as pessoas envolvidas no aborto estavam excomungadas.



2)Há quem diga que o Bispo teria de citar os nomes dos excomungados porque a questão foi para a mídia. Discordo. Bastaria dizer que a Igreja estava tomando as providências cabíveis. Não é cristão expor as pessoas dessa maneira.



3) Há quem diga, ainda, que “quem comete tal pecado deve mesmo ter seu nome público, para que todos saibam”. Discordo também. Nem todos os Padres pedófilos, corruptos e que possuem famílias fora do Ministério, têm seus nomes levados a público, sob a desculpa de que se deve preservar suas identidades.



4) Ouvi argumentos também do tipo “os fiéis podem ficar tranqüilos porque a Igreja não erra”. Argumentos desse tipo não merecem comentários.



5) Ademais, não deve ter sido o único caso de aborto da Arquidiocese de Dom Sobrinho. Ele só excomunga quem vai para o jornal? Estranho, cheira a promoção pessoal.



6) Por outro lado, é necessária uma reflexão teológica sobre a excomunhão. Se a excomunhão por aborto é motivada pelo assassinato de um feto, logo indefeso, porque determinados assassinatos de pessoas indefesas não geram excomunhão? Será interessante a vida de uma mãe que verá numa Missa, de longe, o estuprador de sua filha comungando, enquanto ela fica impedida dos Sacramentos? Casais em segunda união também ficam impedidos de comungar. Então o aborto e a segunda união estão nivelados?



7) Outro absurdo foi nivelar os abortos, esse é grave. Dom Sobrinho falou de tantos milhões de abortos realizados no Brasil. Ora, todos eles são feitos em crianças de 9 anos estupradas pelos respectivos padrastos? Luiz Antônio Machado de Farias, falando da questão da violência urbana, usa o termo “esquizofrenia analítica” ao comentar sobre estudos que nivelam o tema em todos os casos. Foi o que Dom Sobrinho fez. A regra universal do Vaticano impede o exame dos casos concretos, gerando a noção falsa de que todos os casos são iguais, mesmo numa humanidade que evolui em direção à pluralidade e a singularidade de análises de casos, no sistema jurídico, por exemplo. A Bíblia mesmo retrata isso: Cristo analisava casos específicos, tanto é que esbravejou e expulsou vendilhões do templo num dia, e entrou nele para fazer leituras no outro. Cumpria preceitos judaicos, mas roubava espigas em dia de sábado. Sabia o momento de analisar o caso concreto para tomar uma posição mais justa.



8) A Igreja é contra o aborto por preservar a vida. Se ao médico resolve proceder o parto e a mãe morre, de qualquer forma, devido ao preceito da Igreja, uma vida morre e a outra fica. Logo, única e exclusivamente por causa do preceito religioso, a menina morreria. Tudo bem que uma vida possui a possibilidade de auto-defesa e outra não. Mesmo assim, nesse caso, quem seria o assassino da menina? A natureza? Deus? A Igreja?



9) A argumentação de que deve-se deixar a natureza seguir seu curso, também não procede. A medicina existe para impedir o curso da natureza, já que ela cura doenças naturais, portanto, por esse argumento, ela nem deveria existir então.



10) Eu mesmo bato constantemente na tecla de o diagnóstico médico não pode ser absoluto. O professor Ives Gandra lembra que possui na sua sala de aula da USP uma aluna anencéfala. Como isso? Simples: o diagnóstico feito sobre ela, quando ainda no ventre da mãe, apontava que ela não teria chances de vida, pois nasceria sem cérebro. A mãe decidiu ter a menina: o diagnóstico estava errado, a menina é viva até hoje. No caso da menina do Recife, porém, até eu, leigo no assunto, posso crer que a estrutura óssea e orgânica de uma menina de 9 anos não aguentariam um parto de gêmeos. Toda mulher sabe ainda os efeitos imediatos e a médio/longo prazo de uma gravidez no corpo de uma mulher. Não precisa ser médico nem teólogo para saber disso.



11) A idéia da Arquidiocese de Olinda/Recife de entrar com uma ação judicial diante do caso é incoerente. A equipe médica cumpriu os ditames do artigo 128, inciso II do código penal. À época, a Igreja Católica lutou no Congresso para a não alteração do artigo em tela, e o fez, como já disse, investida de todo o seu direito democrático de arguir sua visão de direito diante da federalidade, cumprindo fielmente os ditames do Estado Democrático de Direito, ainda que análises burras tenham chamada a atitude de autoritária e retrógrada. Porém, tendo perdido a causa, a Igreja deve tomar a consciência de que possui uma visão interna diversa da do campo legal, portanto, deve tomar suas providência internamente, não possuindo, nesse caso razão legal para arguir direito secular.



Dessa forma, vejo que a falha de Dom Sobrinho não foi excomungar o grupo que realizou o aborto: ele cumpriu a função episcopal e seguiu a regra do Vaticano. Essa regra é que, a meu ver, deve ser teologicamente revista, tanto os motivos que geram a excomunhão, quanto a análise de casos específicos de aborto, ato que, obviamente, sou contra, mas que, entendo, deva ser observado com mais singularidade de caso. Os erros de Dom Sobrinho foram expor uma família já abalada pelo assunto; se omitir diante do crime de estupro e nivelar a análise do crime de aborto, como se todo aborto fosse igual.



Aborto é crime, contra a vida e contra Deus. Mas a falta de compaixão pelo outro é crime e pecado também. Cristo veio não só para que todos tenham vida, mas que a tenham em plenitude (Jo 10,10). O combate ao aborto é um primeiro passo. A análise singular e carinhosa dos casos de aborto, para que as vítimas de estupro e as famílias das vítimas tenham vida em plenitude, deve ser a continuidade desse caminho.







quinta-feira, 5 de março de 2009

ARTIGO...

EU (TAMBÉM) QUERO UNIVERSIDADE PÚBLICA
Publicado no Site Gazeta das Cidades (www.gazetadascidades.com.br) em 06/03/09



A inauguração do Instituto Tecnológico do CEFET, hoje, em Cabo Frio, nos traz duas imagens interessantes.

Em primeiro lugar, o imaginário do holofote presidencial. Serviços públicos – alguns – param hoje ao meio-dia para que se possa prestigiar a presença do Chefão de Brasília. Alguns atos da municipalidade também serão suspensos em virtude do fato. Na última oportunidade semelhante, quando da inauguração do aeroporto, a grande querela foi uma questão de DNA: quem era o pai do aeroporto – o ex-prefeito Alair Corrêa ou o atual, Marquinho Mendes? Quem era a autoridade com mais direito de presença no evento? Um Deputado Estadual ou o Prefeito da cidade? Não queremos responder à questão, mas que é interessante a força de iluminação dos holofotes, isso é.

A segunda imagem é a da tranqüilidade democrática. Muita gente vai dizer que não há mais necessidade de discutir a questão da Universidade Pública, porque o Instituto Tecnológico do CEFET já oferece, a partir de hoje (?) o curso de Licenciatura em Física.

Engano: a política, que para o Governante é a arte do menos ruim (POSSÍVEL) é, para a população (ou deveria ser), a arte do “mais melhor” (IDEAL). Assim, o cidadão deve buscar sempre a melhoria constante do serviço público, ainda que para o Governo o cumprimento de uma “agenda mínima” (nos termos de Márcia Leite) seja satisfatória.

Porque não tivemos - ou temos - um fórum de discussão permanente da questão da Universidade Pública em Cabo Frio, ou ainda, uma série de audiências públicas, como tivemos no caso Club Med? Sabemos que o pequeno avanço sócio-jurídico e ambiental que obtivemos neste caso foi devido às audiências públicas, no meio das discussões e embates de idéias, ainda que deixemos de lado certas briguinhas adolescentes na porta do teatro municipal.

Porque não implantar uma das duas medidas para a questão (fórum permanente ou audiências públicas), a fim de que a população, bem ou mal, participe da discussão? Em Rio das Ostras, os quatro cursos inicialmente implantados pela UFF foram fruto de consulta popular na cidade. Dessa forma, o Governo atende uma agenda democrática e ainda joga no colo dos munícipes a responsabilidade pelo sucesso dos cursos.

Outra discussão é a forma de implantação universitária. A modalidade de convênio é notoriamente falida, vide a situação da UFF/Cabo Frio/Ciências Contábeis, bem como de outros municípios no Brasil de hoje. A implantação de Universidade Municipal, com toda a estrutura bancada pelo Governo Municipal em parceria com a iniciativa privada é onerosa demais para um Governo que afirma estar mergulhado na misteriosa e mítica “crise mundial”, que nos atinge tanto quanto atinge Plutão. Além disso, esta alternativa desvia a questão da função educacional municipal, ligada ao Ensino Fundamental, devendo ser apenas fomentadora do Ensino Superior, e não seu mantenedor exclusivo.

As modalidades de Universidade Regional e de oferecimento estrutural me parecem as melhores.



Na primeira, segue-se o exemplo próximo da UENF, sediada em Campos, mas que abriga alunos de todo o Norte-Fluminense. Por aqui, a modalidade contaria ainda com recursos das diversas cidades da Região dos Lagos, compondo um orçamento unificado regional para o atendimento da demanda. O único problema seria o cumprimento de tal acordo, posto que nem todos os governos da região possuem bom relacionamento e nem todos os governantes são exímios cumpridores de seus acordos.

A modalidade de oferecimento estrutural me parece ser a melhor, seguindo o exemplo macaense, embora alguns denominem este projeto de Universidade Municipal, o que discordo. Macaé ofereceu à UFRJ toda a estrutura predial e material para a instalação de um Pólo na cidade com alguns cursos. Hoje, a UFRJ está em Macaé como um Pólo ligado diretamente à sede, com toda a estrutura.

O movimento continua, porque não se chama “quero um curso superior público em Cabo Frio”, e sim “quero Universidade Pública”. O CEFET é muito bom, e o curso de Licenciatura em Física, melhor ainda. É um avanço, sem dúvida, fruto de um bom trabalho de contato com a Via Federal de acesso ao Ensino Superior. Porque não, então, aprofundá-lo? Enquanto eleitorado, visamos a cidade que queremos. E a cidade que queremos precisa de mais. Precisa de Universidade Pública já.

terça-feira, 3 de março de 2009

MIGALHAS (legislativas...)


---------- Diferente da interpretação noticiada neste Blog, a adesão do Vereador Taylor à candidatura do atual Presidente Alfredo Gonçalves não se deu por pressão do Deputado Alair Corrêa em relação à questão partidária. A opção foi devido a pedido pessoal do próprio Alair. O Deputado teria solicitado a ele e Marcello Corrêa que votassem com Alfredo, já que a candidatura do atual Presidente, embora pertencente ao grupo do Governo, representava uma postura mais independente.


---------- Agora sim começa o ano no Poder Legislativo de Cabo Frio. O Vereador Fernando do Comilão já correu na frente: coluna semanal na Folha dos Lagos, prestação de contas no mesmo jornal... se fez inclusive presente nos solitários corredores da Câmara, mesmo no recesso...


---------- Agora vale o que está escrito: funcionário da Câmara que entrar depois de 9h15min de manhã ou 14h15min no turno da tarde, ou não assinar o ponto, terá seu dia suprimido do pagamento...


---------- Só o andamento das Sessões dirá como vai se configurar o novo grupo de Vereadores: o grupo dos novos vai votar diferente? Além disso, ao que tudo indica, a oposição de Marcello e Taylor não será tão piedosa quanto parecia...


---------- Para desespero do Jornalista Renato Silveira, as Comissões Técnicas da Câmara ainda se articulam para eleger seus presidentes e organizar suas reuniões...


---------- O site da Câmara Municipal tem sido bem atualizado. Mais uma forma da população fiscalizar, ou de vez em quando, se assustar...

segunda-feira, 2 de março de 2009


Depois do Carnaval



Cecília Meireles



Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.


À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida.


Somos um povo muito variado e mesmo contraditório: o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pessoas bem comportadas, e aparentemente elegantes e finas, alimentam, durante trezentos dias do ano, o modesto sonho de serem ursos, macacos, onças, gatos e outros bichos? Quem diria que há tantas vocações para índios e escravas gregas, neste país de letrados e de liberdade?


Por outro lado, neste chamado país subdesenvolvido, quem poderia imaginar que há tantos reis e imperadores, princesas das Mil e Uma Noites, soberanos fantásticos, banhados em esplendores que, se não são propriamente das minas de Golconda, resultam, afinal, mais caros: pois se as gemas verdadeiras têm valor por toda a vida, estas, de preço não desprezível, se destinam a durar somente algumas horas.Neste país tão avançado e liberal — segundo dizem — há milhares de corações imperiais, milhares de sonhos profundamente comprimidos mas que explodem, no Carnaval, com suas anquinhas e casacas, cartolas e coroas, mantos roçagantes (espanejemos o adjetivo), cetros, luvas e outros acessórios.


Aliás, em matéria de reinados, vamos do Rei do Chumbo ao da Voz, passando pelo dos Cabritos e dos Parafusos: como se pode ver no catálogo telefônico. Temos impérios vários, príncipes, imperatrizes, princesas, em etiquetas de roupa e em rótulos de bebidas. É o nosso sonho de grandeza, a nossa compensação, a valorização que damos aos nossos próprios méritos...Mas, agora que o Carnaval passou, que vamos fazer de tantos quilos de miçangas, de tantos olhos faraônicos, de tantas coroas superpostas, de tantas plumas, leques, sombrinhas...?


"Ved de quán poco valorSon las cosas tras que andamos Y corremos..."


dizia Jorge Manrique. E no século XV! E falando de coisas de verdade! Mas os homens gostam da ilusão. E já vão preparar o próximo Carnaval...


Texto extraído do livro "Quatro Vozes", Editora Record - Rio de Janeiro, 1998, pág. 93.
Comentário: de fato, homens e mulheres gostam de viver de ilusão. Escrever é uma delas, cara Cecília. Parabéns pelas belas ilusões que nos deixou (resposta in memorian!)