ESPECIAL ORÇAMENTO PARTICIPATIVO 2018

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

ARTIGO...



Carnaval 2009 : não somos tão corruptos assim
Publicado no site do Jornal Primeira Hora, em 28/02/2009 - www.jornalprimeirahora.com.br


Os resultados do carnaval 2009, tanto nos desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro quanto de Cabo Frio, nos forneceram uma lição interessante – de acordo com os campeões, não somos tão corruptos assim.

No Rio de Janeiro, a vitória incontestável do Salgueiro (segundo as palavras do intrépido intérprete Quinho), de ponta a ponta na apuração, contrariou muitas expectativas resignadas dos torcedores carnavalescos, segundo os quais a vitória da Beija-Flor já era carta marcada do carnaval carioca, ainda mais com o apadrinhamento do Presidente Lula, a força de Anísio e o drama criado em cima da doença e do casamento de Neguinho. Apesar de portelense, devo reocnhecer que o Salgueiro veio com um enredo simples e uma força da comunidade muito grande. Isso não exclui possíveis participações do crime organizado, mas se assim fosse, a Mangueira seria a campeã com todas as notas 10. Isso também não exclui a constante aversão dos jurados a soluções inovadoras, como a do Carnavalesco Paulo Barros, que promoveu, a meu ver, o mais belo e diferente desfile do carnaval, pela Vila Isabel. Novamente, a técnica prevaleceu sobre a imaginação. De toda sorte, para quem acreditava que os jurados ou a mídia dariam o título de bandeja para a Beija-Flor, por motivos financeiros ou não, fica a lição: não somos tão corruptos assim.

Em Cabo Frio, a vitória da Império também nos traz respostas. O comentário na cidade era que o título estava entregue para a Flor da Passagem e que a apuração seria corrupta, ainda mais depois dos problemas com os jurados no ano passado, acusações sempre na idéia de apontar a relação do atual Governo com os resultados do Carnaval. O que se viu foi a vitória de uma Escola apadrinhada, direta ou indiretamente, pelo ex-Prefeito Alair Corrêa. Ao que tudo indica, portanto, não pode ter havido “o dedo do Governo” na apuração. A hipótese de injeção violenta de dinheiro por parte do atual Deputado Estadual é remota também. O fato, de qualquer forma, é que a vitória da Império traz a séria impressão de que não há tanta corrupção na apuração do carnaval cabo-friense quanto se pensava, se é que há alguma.

Conclusão: menos um tópico na imensa lista de críticas dos pudicos de plantão. Salve o samba, cultura popular: ainda que ele não seja mais tão popular assim, sem dúvida, se movimenta bem mais “de baixo para cima” do que as populares músicas brasileiras e as empolgadinhas tendências alternativas e undergrounds, que não tocam nos barracos nem nos guetos do Brasil, afinal, como diz João Bosco, “fantasia é um troço que o cara tira no Carnaval...”

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

"Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é Fevereiro..." (Adriana Falcão)


Carnaval não é um tempo
Um estado
Carnaval é um lugar
Lugar de um coração
Lugar do meu coração guerreiro
Que é raça, é filho desse chão
Meu canto tem raiz, é brasileiro
É natureza e miscigenação (Portela 2009)

Carnaval é uma chance
Uma chance de perceber
Que em nossas veias correm notas musicais
Trazendo paz e harmonia, paixão e razão de viver
Maestro e menestréis vem conhecer (Imperatriz 2009)

Não quero desfilar neste Carnaval
Não quero me fantasiar
Nem me deixar levar
Eu quero caminhar com a natureza
E bater bem forte o tambor
Nas ruas de São Salvador
Conduz os meus passos, Senhor do Bonfim (Viradouro 2009)

Quero passar por esse mar
Que banha minha cidade
E sobriamente ver um povo a desfilar
Feito um rio de magia que deságua luxo e cor(Beija-Flor 2009)

O mar da minha gente
Ah
O mar, misterioso mar
Que vem do horizonte
É o berço das sereias
Lendário e fascinante(Império Serrano 2009)

E nesse lugar sem tempo
Nesse local sem pátria
Que chamam carnaval
O som do meu tambor ecoa... ecoa pelo ar
E faz meu coração com emoção... pulsar!
Invade a alma... alucina
É vida, força e vibração!
Tem batuque... tem magia... tem axé!
O poder que contagia... quem tem fé! (Salgueiro 2009)

Quatro dias
E somente um Sol
Tardes eternas
que esperam a noite chegar
Onde sonho com a Lua
Vejo o Luar que embala meu sonhos
Luar de qualquer estação (Unidos da Tijuca 2009)

E nesse chão de belezas mil
Cada lágrima que já rolou
Fertilizou a esperança
Da nossa gente, valeu a pena
Abraço o meu irmão
Pra reviver a nossa história
Deixar guardado na memória... o seu valor (Mangueira 2009)

Carnaval, esse imortal!
Com o povo que me conquistou
a platéia vibrar
E a cidade toda aplaudir(Vila Isabel 2009)

Mesmo nestas terras
sob o manto desse meu Brasil
Não imaginava encontrar
Ver tanta beleza
seduzindo meu olhar(Grande Rio 2009)

Nas ruas
Na avenida
Na morada
Ou na esquina
Reluzente, estrela de um encontro divinal!
Risca o céu em poesias
Traz a magia pra reger meu carnaval
Despertam das páginas do tempo(Mocidade 2009)

É sempre assim, o proibido traz sedução
Do início ao fim, do paraíso a tentação
Como será o amanhã?
Que Deus me permita ser só alegria
Aos cavalheiros da destruição
Venha a paz e a razão
Redenção na folia
O homem sonhou e um dia voou
Do gênio indomável uma nova invenção
Criança um Brasil de esperança
O mundo precisa desta salvação
Se é bom para o mundo, se vai melhorar
É proibido por quê? (Porto da Pedra 2009)

E nada mais havendo a tratar
Meu lugar-menino carnaval despede-se de si mesmo
Na quarta de cinzas, queima o gelo de um ano morno
Mas jamais fantasia amores
Porque se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval.
(Vinícius de Moraes)


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

MIGALHAS (Carnavalescas...)


---------- O G.R.E.S. Flor da Passagem, através da Lei 2175/2009, recebeu do Governo de Cabo Frio o título de Utilidade Pública Municipal. Isso significa isenção de impostos municipais e a bertura jurídica e legal para, em seguida, a agremiação solicitar ao Governo a chamada subvenção social, que as entidades que possuem o título de utilidade pública têm o direito de receber. Ou seja: se de fato Marquinho cumprir a promessa de cortar a subvenção das escolas em 2010, a Flor da Passagem continuará recebendo dinheiro público, por meio de subvenção social.



--------- A movimentação na Morada do Samba é intensa. Pude visitar alguns barracões ontem, mas parece anti-ético citar nomes. Só dá para dizer que tem Escola que parece morta, politicamente prejudicada, mas se conseguir correr contra o tempo, vai surpeeender na Avenida. É aguardar pra ver...



---------- Carnaval e política se misturam sim - se isso é bom ou ruim é outra história. Dá pra ver claramente que há agremiações co lado do Governo, outras, ao lado do grupo do Deputado Alair Corrêa, outras neutras. Império e Banda da Cidade pendem para o lado de Alair. Do lado do Prefeito Marquinho, Flor da Passagem e Em Cima da Hora são os "baluartes". A Vermelho e Branco não parece ter posição evidente, embora as conversas na comunidade caminhem para o lado do Deputado...



---------- Como será o Carnaval 2010 sem subvenção? Será que as máscaras cairão, e vamos descobrir quem vive de desvio de subvenção? Será que vamos descobrir quem realmente faz carnaval por cultura e arte? Ou veremos formas de burlar e esconder a falta da subvenção para manter o amor às tetas gordas do Governo?



Teatro Mágico...

Publicamos abaixo o release gentilmente enviado pelo jornalista Ravi Arrabal, sobre um bom evento da cultura cabo-friense que vai rolar domingo:


Teatro Mágico em Cabo Frio

Domingo é o dia do Teatro Mágico se apresentar no Tamoyo Esporte Clube, às 20h. O espetáculo se propõe a debater, de forma romântica e bem humorada, as questões que cercam a sociedade desigual e desumana que nos rodeia. A proposta do Teatro Mágico, acessível a todos, é unir diversas manifestações artísticas em um mesmo espetáculo. Fundamentalmente música, circo, poesia, teatro, dança.


Fernando Anitelli , 34 anos, ator, músico e compositor, é o responsável pela criação do pro-jeto “O Teatro Mágico”. Nascido em Presidente Prudente e criado na cidade de Osasco, São Paulo, Anitelli “brinca” com arranjos e melodias desde os 13 anos,


- Quando vi que rimar amor com humor funcionava, não só na estética e na melodia, mas no sentido que aquilo tinha pra mim, nunca mais parei de fazer música - revela Fernando.
Em 2003, Anitelli entrou em estúdio para gravar seu primeiro CD. O álbum recebeu o sugestivo título “O Teatro Mágico: Entrada para Raros”, numa referência ao best-seller “O Lobo da Estepe”, do escritor alemão Hermann Hesse. “Quando eu li sobre o Teatro Mágico do Hesse, percebi que era justamente aquilo que eu gostaria de montar: um espetáculo que juntasse tudo numa coisa só, malabaristas, atores, cantores, poetas, palhaços, bailarinas e tudo mais que a minha imaginação pudesse criar. O Teatro Mágico é um lugar onde tudo é possível” conta.
Em cena, Anitelli revela uma expressão cênica incrível seja declamando versos, cantando ou fazendo performances.


- Quando estou no palco, faço questão de frisar que aquele ali sou eu, não é um palhaço ou outro personagem qualquer - disse.


A proposta do Teatro Mágico torna possível que cada um se mostre como é, que cada verdade interna seja revelada.


- Essa é a grande brincadeira. Ser o que se é, afinal todos somos raros e temos que ter consciência disso - destaca Fernando.


E assim, Anitelli vai traçando um paralelo entre o real e o imaginário enquanto o público, aos poucos, vai entrando na mesma freqüência sinestésica marcada pelo ritmo do espetáculo.
No final, palco e platéia se fundem e cada um dos presentes vai descobrindo a delícia de se permitir ser um pouco mais de si mesmo. “Precisamos prestar atenção nas nossas verdades, nos nossos ideais”.


É bom correr logo atrás de ingresso, pois o primeiro lote já está esgotado, e o segundo (R$30) está quase no fim. Os ingressos estão sendo vendidos nas lojas Billabong em Cabo Frio, Buzios e Rio das Ostras.


ARTIGO...

Dom Sebastião e Sean Connery
Uma análise sonolenta dos mitos da atualidade cabo-friense
Publicado no Jornal Primeira Hora (www.jornalprimeirahora.com.br), em 18/02/09

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Nosso mundo é cheio de mitos. Desde os tempos mais remotos, falando de religião, de sociedade, cultura,crenças e políticas, temos e cremos nos nossos mitos. Desde a mistura assassina de manga com leite, passando pelo homem-do-saco, que apavora crianças de berimbau, até a caverna de Platão, os mitos são tão presentes, constantes e chatos como os guardadores de carros e guardas municipais em Cabo Frio, tensos como mulheres amadas.

Mitos são criados por alguém com objetivos. Há dois tipos de mitos, basicamente: os mantenedores e os justificadores. Aqueles servem para manter ruma situação, uma esperança, um desejo que não se realiza. Estes, servem para dar razão a algum fato inexplicado, para dar resposta ao que não possui resposta, ou ainda para ocultar a resposta verdadeira, a fim de ludibriar um público-alvo.

No caso de mito mantenedor, temos o de Dom Sebastião, Rei português desaparecido em batalha no século XVI. Por décadas – e em menor grau ainda hoje – portugueses acreditavam no retorno triunfal de Dom Sebastião, do meio dos mares, para governar a nação com força e imponência. A crença chegou ao Brasil e às colônias em geral, gerando o que a história chamam de movimentos sebastianistas.





O mito justificador traz à mente a lembrança do grande filme “Em Nome da Rosa”, em que um frade franciscano, interpretado por Sean Connery (numa alusão ao personagem real histórico Guilherme de Ockham) vai a um Mosteiro Beneditino investigar uma série de assassinatos que vinham sendo creditados ao demônio. Lógico que – contando o final aos curiosos – o assassino é um dos monges, e como o próprio personagem franciscano diz, “a única presença do demônio neste recinto está no imenso desejo que vocês têm de que ele aqui esteja”.

Pois bem. O que isso tem a ver com Cabo Frio?


Simples: a possível posse de Alair é um mito mantenedor; a falta de dinheiro da Prefeitura – para tudo – é um mito justificador.


Os constantes anúncios – semanais, com direito a fogos de artifício – de cassação do Prefeito Marquinho Mendes e da conseqüente posse do segundo colocado, Alair Corrêa, têm mantido a esperança do grupo do ex-Prefeito. A expectativa semanal de poder mantém a fé no ideal alairzista e ainda trazem a imagem do herói injustiçado pela máquina pública. A fé no Dom Sebastião Corrêa, que voltará, é a imagem mais clara dos últimos meses. O próprio grupo de Alair sabe que as chances são quase impossíveis, e que viveremos os próximos anos vendo vitórias de Alair na primeira instância, e derrotas nas instâncias seguintes. Isso não quer dizer que Alair não possa vir a assumir. Mas as dezenas de propagações de sua posse “nessa semana”, ou ainda “amanhã” ou “até o dia tal” têm somente ocmo objetivo manter a esperança sebastianista do poder.

Se na Idade Média tudo era culpa do demônio – coitado – hoje a culpa é da crise econômica americana. Quando se diz algo da parte do Governo, diz-se que a crise afetou o orçamento municipal, ou ainda, que os precatórios deixados por Alair – cerca de 5 milhões – estão trazendo problemas financeiros para a Prefeitura. Professores não recebem; salários atrasam; Guarda Municipal protesta...não há dinheiro para nada na cidade. De quem é a culpa? Da Crise Mundial. Coincidência – o ano passado foi ano eleitoral. Para onde foi o dinheiro? Há algo errado na contabilidade do Prefeito. Ou temos empregados demais na cidade, ou temos dinheiro de menos, por isso não há pagamento, ou há atraso. A crise mundial é um mito criado para justificar a má administração de dinheiro público da Prefeitura de Cabo Frio.


Como disse o samba de enredo do G.R.E.S. Em Cima da Hora, no ano passado, são “mitos e lendas, desde as antigas civilizações”. Mas se não assumirmos o papel daquela dupla simpática da Discovery, e nos tornamos nós também “caçadores de mitos”, tudo ficara como está, e Marx terá razão parcial – a religião será o ópio do povo. Mas não a religião das Igrejas, e sim a religião em sentido amplo – a crença naquilo que não vemos, a fé nas desculpas dos homens públicos. Prefiro o ópio. E a mula-sem-cabeça também.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Pérola da semana

Pérola da semana


Em recente edição do programa "Mais Você", numa conversa com a autora Glória Perez, a apresentadora Ana Maria Braga soltou esta inteligente definição do conceito de "casta", na cultura indiana:


"A casta é uma coisa...uma coisa que você nasce. Você nasce e... não consegue mais sair dela."

(Ana Maria Braga)


Comentário: não dá pra esperar muito de uma conversa entre Glória Perez e Ana Maria Braga...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA




Jornal Sal e Luz, fevereiro de 2009





IGREJA, PAGANISMO E CARNAVAL



Aproxima-se o Carnaval. motivo de polêmica para o Cristão Católico: a Igreja permite ou não a participação no Carnaval? Para tentar responder à pergunta, recorramos ao Compêndio da Doutrina Social da Igreja e ao Catecismo da Igreja Católica.

A primeira argumentação que ouvimos é a de que o Carnaval é uma festa pagã, por isso, os Cristãos Católicos não devem dela participar. Este argumento é bastante falho, e por si só não responde, nem de longe, à questão.

Ao falar de paganismo, falamos das religiões do Império Romano, que antecederam historicamente o Cristianismo. O termo paganismo era usado pelos judeus dos tempos de Cristo para definir todas as outras culturas e religiões que não fossem a deles. O termo “pagão”, portanto, em si mesmo já é dotado de preconceito e não é compatível com a doutrina cristã, posto que o próprio Cristo e o Cristianismo primitivo combateram a exclusão dos chamados “pagãos” da sociedade: a carta aos Efésios fala que os pagãos foram admitidos à mesma herança do Reino (Ef 3,6). Isaías, no Antigo Testamento, fala que o Messias viria não apenas para o povo escolhido (Judeus) mas sim que seria luz para todas as nações (Is 42,6). Além disso, a Bíblia afirma (At 10, 34), e a Doutrina Social confirma (§ 144)*, que Deus não faz acepção de pessoas.

O paganismo, por outro lado, faz parte da nossa história. Se fôssemos, de fato, rejeitar tudo que tem origem pagã, teríamos problemas, por exemplo, com a data do Natal. Atenção: não teríamos problemas com a celebração, mas com a data. O dia 25 de dezembro era data de culto pagão (romano) ao deus sol Natalis Solis Invicti, ou Nascimento do Sol Invencível. Não poderíamos também, por exemplo, ir a saunas, já que elas, até o período entre os anos 117 e 138, eram locais de encontros sexuais e orgias, como comprovam as recentes pesquisas sobre as chamadas “termas do prazer”, ou “termas suburbanas”, de Pompéia, descobertas a partir de escavações oriundas da erupção do vulcão Vesúvio, no ano de 79.

Além disso, há a questão cultural do carnaval. Escolas estudam enredos e histórias populares; artesãos preparam-se ao longo do ano para expor suas obras; há envolvimento de algumas comunidades na produção do evento. A concupiscência da carne de uns, conforme termo usado pelo Catecismo da Igreja Católica nos parágrafos 2514 e 2520, não pode condenar a reta intenção artística e cultural de muitos. A Doutrina Social lembra que “a cultura deve constituir um campo privilegiado de presença e empenho pela Igreja (...) a separação entre a Fé cristã e a vida cotidiana é julgada pelo Concílio Vaticano II como um dos erros mais graves do nosso tempo“ (§554).

A questão, portanto, não é a festa, mas o que se faz nela - não é o que esta fora que traz o pecado, mas o que está dentro, como disse Jesus (Mt 15,11r). Isso não quer dizer, por outro lado, que todos os lugares e eventos nos convêm: todos são permitidos, como diz Paulo, mas nem todos nos convêm (I Cor 6,12). Para a igreja, “o fiel leigo deve agir segundo as exigência ditadas pela prudência: é esta a virtude que dispõe a discernir em cada circunstância o verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para cumpri-lo. Graças a ela, se aplicam corretamente os princípios morais aos casos particulares.”(547)

O problema, portanto, é o pecado moral e social que pode ocorrer ou não no carnaval: o dinheiro que se desvia, as orgias, a exposição do corpo, o desperdício de dinheiro público, a embriaguez, etc. Esses pecados podem ser cometidos dentro ou fora do carnaval. Não é o carnaval que nos traz o pecado, mas nós, dentro ou fora do carnaval, que o cometemos. Claro que o ambiente pode propiciar nossa fraca natureza a cometê-los: a liberdade não deve ser apenas a capacidade de escolher, mas também de “recusar tudo que é moralmente negativo, seja qual for a forma em que se apresente (§200). Deus quis deixar ao homem o poder de decidir (Eclo 15, 14) “por convicção pessoal, e não por um impulso interno cego ou debaixo de mera coação externa” (§135).

Nossa Doutrina, portanto, não proíbe nem condena o Carnaval, mas condena, sem dúvida, atos pecaminosos, tanto moralmente como socialmente, que possam ocorrer dentro desta festa, bem como em outras festas. Um carnaval com corrupção do dinheiro e concupiscência da carne, esse sim, deve ser condenado.

* Compêndio da Doutrina Social da Igreja – Pontifício Conselho de Justiça e Paz; Edições Paulinas, São Paulo, 2005

CONTO...



A cadeira branca

Estava lá. Recostada ao muro. Não era bonita, nem era feia, era cadeira. Branca de um branco sem sombra, sem brilho e sem alma. Mas tinha espírito.

E tinha mesmo. Foi o que disse o rapaz que estava no grupo. O muro na qual se sustentava a enigmática não era uma muralha qualquer. Diz-se que era casa de ritos e cultos, dos que as beatas passam na rua e fazem frenéticos sinais de cruzes e credos para afastar. Daqueles que há quem diga que tem maldição, que há quem diga que ame, e que de fato ame como a vida inteira numa manhã de calor e paixão.

O medo que tomava conta do coração não era maior que o torpor que tomava conta daquelas mentes insanas e adolescentes. O mais exaltado não titubeou a olhar para os lados, naquela quente madrugada, a fim de observar se havia viva alma ou morto espírito a fiscalizar os movimentos de rua. Não havia. Asfalto silencioso como uma ladeira baiana na Lua, tomou de assalto a espiritual – e espirituosa – cadeira branca nos braços e levou-a para casa. E levou a casa para a cadeira. E o muro para a casa.

Tudo certo. Piadas e risos, brados exaltados pela coragem no roubo de um artefato quase místico, encaminhou-se o corajoso rapaz ao seu quarto, na qual depositava-se o objeto: a cadeira branca. E dormiu tranqüilo. Até as 4 da manhã.

Acordou de supetão e ao abrir os olhos, encarou a cadeira, e a cadeira lhe encarou. Nada falaram, mas seus olhares se vociferavam. Outra cena igual se repete, de meia em meia hora quase. E a noite de sono vai-se embora, enquanto, em seu lugar, chegam dúvidas e medos sobre aquele totem afro-brasileiro, da cor de uma não-África.

Os dias passavam, e a angústia, misturada a um medo incoerente, só cresciam. O temor pelo objeto só despertava no louco rapaz o desejo sempre crescente de manter e estudar ainda mais o fabuloso sentável. Descobriu-se que fora de um preto velho há muitos anos, hoje usada por sua filha já decadente, para diariamente observar o movimento daquela rua, obtendo energias daquele popular e sacro templo.

Mas não há mais quem diga. O rapaz permanece naquela sacada do quarto, por todos os dias. E olha o movimento daquela rua. E não diz mais uma só palavra, a não ser que alguém manifeste desejo de sentar na cadeira branca. E a cada minuto, chegam romeiros de toda a parte do País, a venerar o guru que emite profecias e curas a cada tentativa de uso de uma tal cadeira, que ninguém sabe de onde veio e nem de quem era.

E o movimento continua na rua. E o guru apenas sabe que está na sacada. E que a cadeira existe. E que eu também sou romeiro.
****