quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Escritos Soteropolitanos

PELÔ II


Pelô, eu não me canso de olhar teus olhos, eu não me canso de olhar você dormindo. Cada pinta, cada ponto, cada curva, cada riso: eu não me canso de olhar. É diferente. É diferente te amar na rede, é mais que diferente te gozar na varanda. É diferente banhar-me contigo, Pelô, e é baiano demais olhar tua primeira vez, te dar minha primeira vez, dançar nossas primeiras vezes. Sonhar sinceras mentiras, é contemplar teu povo das sacadas, é ver tuas subidas e descidas de Luas. Andar de mãos dadas com o Pelô é não temer surpresas; é acompanhar batuques desde a manhã; é pensar e não pensar no amanhã. Andar abraçado ao Pelô, tomá-lo nos braços, é fazer do cuidar de um outro uma quase-religião. É ver a própria felicidade em felicidades alheia e acreditar que o que é utópico é igualmente real – é surpreende-se com a utopia, é ter baianidade, é ser nagô ao violão. Ouvir o Pelô é ouvir as crianças e suas lições de moral. É ver que o Pelô se encanta com as crianças porque é uma criança-mulher. Estar contigo é ver em toda valsa um samba de roda; é ser lesado pelo lesado baiano; é vingar-se num último dia; é vencer no juízo final. Estar contigo, amar contigo e dormir contigo, Pelô, é deixar minha jangada sair pro mar, mesmo sabendo que, ao chegar, meu peixe terei de oferecer em holocausto, e ainda assim agradecer. Pelô, ah Pelô. Não me canso de ver você dormindo. Não me canso de te abraçar acordando.

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Um comentário:

Anônimo disse...

Maravilhoso texto! Dá até vontade de estar na Bahia.