quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

ARTIGO...



O SEXTO ÓCULOS
Ou Salineira com a Comunidade

Na manhã de hoje, a população de Cabo Frio ficou sabendo da nova alteração nas tarifas dos ônibus intermunicipais. Costumo dizer que os aumentos de passagens na cidade são como os óculos do cliente. Explico-me. Quando mais novo – por volta do século XVI – trabalhava eu num escritório de advocacia que mexia, principalmente, (as vírgulas são homenagem a alguém muito especial) com processos de resgate do FGTS de funcionários da Álcalis. Um dos muitos clientes deste processo, a toda semana, vinha a reclamar de sua pobreza, em atitude de profunda mendicância. Em certo dia, o jovem ancião deixa cair os óculos de grau no chão, espatifando-os. Assusto-me. Ele não: “É o sexto”, diz. Aquele cliente não se acostumara com a miséria, ainda. Mas já se acostumara a perder os óculos. Diante da barriga vazia, enxergar ou não era um detalhe.

Por aqui em Cabo Frio, as tarifas são os óculos do cliente. Não nos importamos mais se caem, quebram ou sobem. Em Santa Catarina, Londrina, Curitiba e Porto Alegre, veríamos pessoas “quebrando coisas”, como diria Nietzsche. Talvez não precisemos chegar a esse ponto. Mas se conformar é uma violência maior que quebrar um ônibus.

A FETRANSPOR – Federação das empresas de passageiros do Estado do Rio de Janeiro – que já foi presidida pelo hiper-sacrossanto Francisco José Gavinho Geraldo, menos desconhecido como Chico da Salineira, resolveu pedir ao DETRO – Departamento de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro – o aumento de mais de 28% nas passagens inter-municipais. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, a inflação nacional em 2008 foi de 10,27%, segundo índice do IGP-10. Em 1º de março deste ano o salário mínimo aumentou 9,2%. O DETRO fez biquinho (outra homenagem para alguém importante) para a FETRANSPOR, e aumentou as passagens em 10%. Parece justo, afinal, é o mesmo índice da inflação e do aumento salarial no ano.

CERTO? ERRADO! Em primeiro lugar, o índice da inflação e o aumento do salário são números unitários no ano de 2008, ao passo que o aumento das passagens, se não me falha a doentia memória, não é o primeiro do ano. Por outro lado, a economia não funciona de forma simplória assim. Não sei em quanto os gastos da Salineira aumentaram ou não. Não sei a que ponto a crise internacional atinge uma empresa regional. Não sei se a idéia é somente manter um nível exorbitante de arrecadação. Novamente (???) devemos pressionar a empresa Salineira a empreender Auditoria Pública de suas contas. Eu sei quanto o Prefeito ganha. Sei quanto os Secretários e Vereadores ganham. Basta buscar na Câmara Municipal a Lei que disciplina seus salários. Mas a Salineira, que é concessão municipal, essa ninguém sabe quanto gasta, quanto ganha, nem sabemos se há parafusos de centenas de reais em seus ônibus, como bem gostava o falecido Toninho Branco em Búzios.

O empresário tem direito a ganhar o quanto quiser. É regra da livre-iniciativa. Mas eu também tenho o direito de não ser idiota. Tenho direito de evitar que ele ganhe dinheiro demais em cima de mim, que gasto demais e ganho de menos por causa dele. Se ele tem o direito de me explorar, eu tenho o direito de mandar ele pro inferno. Mas enquanto eu não alcanço esse direito, prefiro desafiá-lo a nos mostrar seus gastos.

Em uma Audiência Pública no ano de 2007, o Sr. Chico da Salineira, respondendo à minha intervenção, disse que se a Prefeitura subsidiasse as passagens de idosos e estudantes, ele abriria as contas em auditoria. O cartão-cidadão não é exatamente o que o Sr. Pediu, mas é parecido. E o Sr., fará parecido, ou fingirá que é com outro?

Enquanto isso, preparo-me para cortar meus cabelos no projeto social “Salineira com a comunidade”. Na volta, pagarei R$ 3,15 para chegar em casa. Mas é assim mesmo. É apenas o sexto óculos que se quebra.

Um comentário:

Helena disse...

Estamos nos acostumando com o que nos mandarem, ser engolido goela abaixo, assim é a questão dos constantes aumentos das tarifas das passagens de ônibus, tudo vem na calada da noite, qdo amanhece já aconteceu, e aceitamos passivamente.