segunda-feira, 24 de novembro de 2008

DOUTRINA SOCIAL


A partir deste mês, nosso blog estará postando mensalmente os artigos sobre a Doutrina Social da Igreja Católica, publicados no Jornal Sal e Luz, da Paróquia Nossa Senhora da Assunção. A Doutrina Social da Igreja é a parte da Teologia preocupada com as relações entre o pensamento cristão-católico e as relações sociais, bem como com a transformação de suas realidades e a crítica a suas desigualdades. Esta linha de pensamento, que vinha sustentada especialmente por Leão XIII e João Paulo II, ganhou força e 2005, com a publicação do Compêndio da Doutrina Social da Igreja, do Pontifício Conselho de Justiça e Paz do Vaticano, documento oficial que reúne todas as reflexões sobre variados temas no contexto da Doutrina Social.


DOUTRINA SOCIAL E A CRISE ECONÔMICA INTERNACIONAL

Recentemente, o Papa Bento XVI manifestou-se em uma homilia acerca da crise econômica internacional, que na verdade repete fatos ocorridos de forma semelhante em 1929 e 1973 (crise do petróleo). A idéia de que a crise do capital é fruto do pecado e da cobiça humana, embora pareça moralista e tradicional à primeira vista, se bem observada, é mais do que lógica. A crise parece ser uma “boa” oportunidade de refletir e fazer com que a sociedade reflita sobre o valor que damos ao dinheiro e ao mercado de capitais (transformação de dinheiro em dinheiro) diante de outros valores sociais e éticos.

Poucos de nós sabemos explicar este fenômeno que nos atinge. A linguagem econômica é afastada do povo. As compras a prazo no mercado imobiliário americano, os juros e os créditos excessivos contribuíram para a crise. O mercado de ações também precisa ser revisto, já que muitas vezes boatos causam quedas ou altas de ações de empresas, gerando desemprego e falências por motivos nada racionais.

A Igreja prega como princípio da economia a limitação dos meios em relação às necessidades individuais e sociais (§ 346)*. A questão econômica, que envolve lucro, juros, crédito e capital, deva ser submissa às necessidades humanas, e não o contrário. Nesse sentido, caberia ao credor propor ao devedor créditos possíveis, e não ilusórios. O não cumprimento desse princípio, por exemplo, causou a crise imobiliária americana, quando os compradores receberam créditos que não poderiam suprir.


O acúmulo de capital, segundo a Igreja, também precisa ser revisto, posto que “o dever de caridade consiste em usar o supérfluo, e às vezes até o necessário, para garantir o indispensável à vida do pobre” (§ 359).

Quanto à já citada questão da relação entre pecado e crise econômica internacional, cabe primeiro entendermos o consumismo como “a orientação mais para o ‘ter’ do que para o ‘ser’, que impede-nos de distinguir entre as formas elevadas de satisfação e as formas artificiais de satisfação” (João Paulo II, Carta Encíclica Centesimus Annus). Entendendo o consumismo como um pecado social, porque traz pobreza ao redor e excesso de bens materiais para si mesmo, e também um pecado psicológico, porque nos afasta das reflexões sobre nós mesmos, numa fuga de nossa própria realidade, podemos entender as afirmações do Papa Bento XVI.

Nas palavras de João Paulo II, “a globalização alimenta novas esperanças, mas também suscita interrogações inquietantes”, porque traz evoluções tecnológicas ao mesmo tempo em que aumenta as desigualdades sociais (Exortação Apostólica Ecclesia in América). Nesse sentido, cabe à Igreja fazer a sociedade refletir a partir de sua doutrina, mas também fazer ela mesma uma auto-reflexão, para não cometermos o tal “pecado psicológico”, ao fugirmos de nossa próprias faltas: de que forma colocamos o dinheiro e o lucro acima das relações humanas, nas nossas festas paroquiais, nossas pastorais, nossos eventos em Capelas, nas vendas de lembranças e contribuições de Santuários? De que forma pensamos e utilizamos o crédito, os juros e o capital nas nossas relações pessoais, trabalhistas e empresariais, como cristãos, no nosso dia-a-dia?

* Compêndio da Doutrina Social da Igreja – Pontifício Conselho de Justiça e Paz; Edições Paulinas, São Paulo, 2005

Um comentário:

Helena disse...

Achei muito boa a idéia de postagem no blog dos artigos do sal e Luz. É papel da Igreja nos levar a refletir e mudarmos o nosso posicionamento com relação ao excesso de consumismo. Devemos estar mais empenhados em assumirmos o nosso verdadeiro compromisso de cristão,nesse mundo tão carente de Amor e de Fé.