quarta-feira, 15 de outubro de 2008

ARTIGO...


GABEIRA É POSSÍVEL?
Publicado no Blog do Totonho em 17 de outubro de 2008 - www.jornalmomento.blig.ig.com.br



Sim – respondo ao enigmático título – sem dúvida, mas com alguns ajustes, tanto nele quanto na visão que há sobre ele, e devemos começar por esse segundo ponto: há uma visão apocalíptica sobre o Deputado do PV, quase uma teoria conspiratória. A idéia de que as pessoas mudam com o tempo – e como mudam, diria um ex-professor – não caiu nas graças do povo, da imprensa e da opinião pública. Por isso a Igreja Católica continua culpada pela inquisição de 500 anos atrás – embora, nesse caso, haja carência de uma reflexão mais profunda; por isso Lula continua sendo um analfabeto para quase todo mundo; por isso comunistas continuam sendo comedores de crianças e por isso todo o Pastor Evangélico e ladrão para grande parte do senso comum, como ocorre com a mesma impressão sobre os políticos.


O motivo é o mesmo: cria-se uma imagem, e essa imagem fixada sobre uma instituição ou uma pessoa se estende eternamente pela história em relação à opinião pública, ainda que o tempo passe e mude as coisas. É a teoria social dos rótulos – seja lá quem tenha criado isso. É o que acontece com o Gabeira: para muitos, o cara ainda continua sendo o maluquete de sunguinha de crochê e defensor da maconha de 40 (?) anos atrás. Essa noção popular me faz lembrar a recente entrevista da Revista Isto É com o antropólogo americano Charles Murray, onde este defende a idéia de que a presença de negros na população brasileira reduz o QI da nação. Essa teoria se funda na Antropologia norte-americana da década de 30, propensa entre os brasilianistas dos Estados Unidos. Apesar disso, Murray ainda a defende com unhas e dentes, 70 anos depois. Ao ler a entrevista, ri e lembrei do Gabeira. Aliás, lembrei do que falam do Gabeira, como se ele ainda fosse o homem da sunga de crochê de décadas atrás. É preciso combater os Murrays da política carioca, aqueles que se esquecem que a época dos bailes da corte e do ritual do beija-mão já passou, e mbora eles tenham parado nesta curva do tempo.


O fato é que Gabeira mudou. Hoje, representa algo diferente da esquerda libertária verde francesa que ecoava há quarenta anos: Gabeira tende ao centro-esquerda, se é que isso existe. O político verde hoje representa mais uma opção moderada ao Governo César Maia, embora tenha o apoio velado deste. Gabeira representa uma transição relativa em relação ao político democrata, o que talvez seja melhor do que a possibilidade da instauração de uma política fria e duque-caxiense na cidade do Rio.


Por outro lado, a política de Gabeira ainda é misteriosa – há quem trema com as possibilidades de seu secretariado. Isso porém pouco quer dizer em eleições cariocas, onde o simbólico vale muito e é possível a vitória de um candidato ideológico, o que não acontece em outras cidades do Estado. Guaradas as devidas minúcias, Gabeira é candidato ideológico, e Paes não. O Rio é capaz de decidir uma eleição pelo voto da classe média, e esta está 99% com Gabeira – isso será decisivo.


Paes é um conhecedor pragmático do Rio, ocupou cargos públicos na cidade e tem uma visão administrativa concreta da cidade. Isso é bom. Resta saber se é necessário. Ao meu ver, o Rio precisa de um Gabeira, embora tecnicamente fosse bom um Paes. O Rio precisa de um choque ideológico, mas não com a ideologia verde e fragmentada de décadas atrás, e sim através do ideário atual de Gabeira, que consegue equilibrar, por exemplo, um Gabinete Parlamentar com sérias prestações de contas, regidas por um membro do Instituto Transparência Brasil – o único do País? - ao lado de uma aliança até então impensável, entre PV e PSDB.


Gabeira caminha para o equilíbrio, e o Rio deve rumar neste mesmo empenho. A diferença é que o equilíbrio, nos dias retrógrados de hoje, para o Rio já é evolução; é vanguarda. César Maia vem da herança brizolista, perdida parcialmente em seus caminhos políticos. De toda sorte, não é dos piores, vide projetos como o Favela-Bairro, aliás, oriundo da política habitacional brizolista do Governo de 83-86. Falta a César muitas coisas mas demos a ele o que é dele, como defende o Cristo! Falta ao atual Prefeito uma visão mais humanitária, comunitária e modernizada, o que Gabeira tem. Quanto a Paes, não sei. Temo um Rio que se torne um gabinete administrativo.


O Rio tem problemas, mas ainda pode se dar ao luxo de ser um laboratório ideológico e cultural, ao mesmo tempo em que se manifeste como um Gabinete de combate ao crime e de promoção da participação popular. Arrisco-me a dizer que Gabeira pode criar isso. Paes não. Então Gabeira é possível. Vamos ver dia 26 se será também real.

Um comentário:

Octavio Perelló disse...

Gabeira é possível. Ou não, diriam os relativistas, como o Caetano Veloso, que, aliás, o apóia. Agora, o Paes também o é, tanto quanto. Esta divisão é a cara do Rio atual - das delícias e das milícias. O Paes vem se criando politicamente neste grupo que inegavelmente realizou algumas ações nesta década e meia, mas que também emperrou nesta manha da meia-bomba, do ato que não se realiza por completo e que não satisfaz. Gabeira traz consigo alguns aspectos de ineditismo para o perfil de um candidato competitivo: assume posições definidas sobre assuntos que são sempre tratados com pragmática hipocrisia e demonstra ainda indignação pelas coisas mal estabelecidas. O Rio está dividido como nunca, e o empate técnico nas pesquisas de opinião o confirma. O que me parece razoável palpitar é que neste Rio que amamos e tememos ardem feridas que o Paes deverá apenas pôr esparadrapo e Gabeira talvez as esprema em busca do expurgo do pus. Isto numa análise mais profunda, que se estenda ao que cada tem concretizado em suas atitudes viscerais. Quanto ao que aparenta ser na superfície, com todo o respeito à diversidade carioca, Gabeira tem mais a cara que o Rio sempre exaltou ter.