quarta-feira, 1 de outubro de 2008

ARTIGO...

Primavera
Publicado no Jornal Folha dos Lagos em 28 de setembro de 2008. COLUNA JUVENTUDE TEM VOZ. Todo domingo, na Folha

Linda é a reflexão sobre o amor. Talvez mais que linda, extremamente necessária, nesse momento de reta final das campanhas eleitorais, onde os ânimos se exaltam, as acusações crescem e as rivalidades se acirram. Talvez mais que necessária, propícia, posto que nasce a Primavera. Como leito que surge em meio ao sono, clarevidencia-se o que propomos aqui. Mas o refletir sobre o amor tem seus problemas, e o primeiro de todos é a alienação e o pieguismo. Há quem fale de amar para mascarar lábios que deveriam propôr luta, como se não fossem gêmeas essas doces senhoras. Impossível lutar sem haver amor pelo que se luta.



Levemos nossa reflexão para um caminho mais concreto: o amor pela realidade mesma. Esqueçamos os platônicos e busquemos um amor de sonhos que se tornam reais; o amor pela justiça, essa impossível, essa loucura, como lembra Jacques Derrida. Esse amor, qual Lua que se mira o olhar ao longe, que faz esquecer os compromissos eleitoreiros, as trocas de favores e as gratidões sem amor – há sentimento menos amoroso e mais medíocre que a mera gratidão, essa lama em que nossos pés mergulham sem sentir?



Incrível pensar como nós, ocidentais da modernidade, somos capazes de ser incoerentes. Discursamos a todo tempo, das Igrejas aos palanques, das declarações quase sempre falsárias de um amor romântico às promessas de fidelidade institucionais, todos discursos sobre o amor, sem sermos meramente capazes de praticá-lo da menor forma possível, no amar a justiça, preferindo o pragmatismo dos números de votos, das vitórias, das rivalidades entre grupos, das campanhas ricas e das propagandas faraônicas.



Vamos falar então do amor, aquilo que mais vale nosso tempo e esforço, aquilo que nos instiga mais na medida em que é impossível, o que nos atrai mais quando está em jogo o que não podermos possuir, como diz John Caputo. Vamos estabelecer neste domingo esta restauradora pausa na caminhada rumo ao talvez. Nos domingos não há placas eleitorais nas ruas, seguradas por quem ama o pão de cada dia. Nos domingos não há comícios barulhentos, muito menos propagandas eleitorais televisivas e cômicas. Aos domingos, não há juízes recebendo representações por propaganda irregular, nem pessoas de bem recebendo material de obras ou entregando cartões com senhas. O amor que não se decide em urnas, nem se impugna em tribunais, esse é o que perseguimos.



Interessante lembrar Emanuel Levinas e suas reflexões sobre a figura do filho. É por causa dele que devo renunciar à minha relação face-a-face, à minha mútua satisfação de prazer com outra pessoa, em prol de sua vida, sua alimentação, sua existência. E quem se arrisca a dizer que é uma mentira o fato de que o amor pelo filho é mais importante que o amor pela esposa, pelo marido, pelo amante? Perguntem à mulher – diz Schopenhauer – e tirem-me a vida se ela escolher ao marido – conclui. Não deve ser diferente hoje, amanhã ou dia 5 de outubro: Maravilhoso é ser grato ao outro e receber prazer em diversos sentidos. Mas mais importante é o terceiro elemento – a cidade, a coletividade, a comunidade, nossos filhos, nosso futuro. Entre o nosso próprio leite presente e o leite futuro de nosso filhos, quem não escolheria, por amor, a segunda opção? É justo querer para mim a troca da minha liberdade de voto por uma pesquisa, um contrato, um favor, e não querer que meu filho manche seu caráter dessa forma no futuro? Faz lembrar, certa vez, o traficante que me disse gostar da vida que levava, mas que preferiria morrer a ver seu filho nas mesmas condições. Talvez ele tivesse motivos para pensar assim. E nós?



Amar o que é meramente possível, moderar o amor à marca mediana do provável, investir com critério e prudência nossas energias amorosas de modo a esperar um justo retorno sobre o esforço despendido, não se encontram aí os predicados de um amante sem paixão? Que novamente as palavras de Caputo nos façam pensar neste período de campanha eleitoral, onde os corações e as mentes se agitam, e perguntar como o cantor: Onde está meu amor? Pela justiça, pelo outro, pela bela, pela verdade, pela princesa e pela coragem, pela liberdade. Quem inventou o amor? Não sabemos nós. Mas aprendamos com ele, este ilógico, que me persegue e me descansa, mas não me deixa sentar na poltrona num dia de domingo. Seja hoje ou em 5 de outubro.

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