terça-feira, 29 de julho de 2008

ARTIGO...

RESOLVEU CANDIDATAR-SE
Publicado no Jornal Folha dos Lagos em 27 de julho de 2008. Coluna Juventude tem Voz, todo domingo, na Folha.


Resolveu candidatar-se. E precisava primeiro convencer os amigos de que era o que queria mostrar ser. E compram-se petiscos, biscoitos e cervejas mil. E faz reuniões de conhecidos nas casas de desconhecidos, para conhecer os que têm conhecimento. Lucram os donos das casas com as sobras das reuniões etílico-familiares.

Resolveu candidatar-se. E precisava convencer o Presidente do Partido e a Executiva do tal, que era ele mesmo um confiável que se poderia confiar. E paga almoços e drinks aos rapazes que ali mandam. E lucram os donos dos restaurantes com o alimento financeiro. E lucram os partidários com o alimento alimentar, como diria Pedro Bial, nosso poeta da neo-redundância.

Resolveu candidatar-se, e na convenção partidária, precisava continuar a convencer. E paga faixas e panfletos, paga gente da roça e ônibus da cidade, para mostrar ao Partido que todos lhe amam. E lucra o dono do veículo, lucram os jovens da periferia e lucra o dono da gráfica.

Resolveu candidatar-se - e já era candidato. E precisava convencer o eleitor de que era o melhor. E abre um canal de TV, e paga coluna semanal num tal jornal, e faz panfletos, cartazes, boletins. Lucra - de novo - o dono da gráfica. Lucra o jornalista e o empresário.

Mas precisa de mais. Compra o voto do pobre e do trabalhador. E é saco de cimento pra um, é tijolo pra outro, e viva a cesta básica para a dona de casa, salve a carona do velhinho para o hospital da capital. E dá cargo de um lado, vaga de emprego de outro, terreno invadido para um, com casa construída para o outro. E lucra o miserável, o periférico, o iludido, o necessitado.

E agora precisa garantir os últimos votos. E paga a boca de urna. E dá dinheiro para os filhos dos que receberam casas, cimentos, tijolos e cestas. E são eles que cumprem legalmente a ilegalidade de convencer o eleitor de última hora. E são eles que ganham agora.

E esquece de apresentar propostas. E esquece de mostrar programa de Governo e de Mandato.

E é eleito. E lucra.

Mas quem lucra? Aquele que resolveu candidatar-se ou o povo que o elegeu? E o que ele lucra? Dinheiro para si ou direitos e progresso social para todos?

Isso depende. Depende do Presidente do Partido não direcionar sua escolha pelo almoço, nem a Executiva pelo drink. Depende do trabalhador não vender seu voto pelo tijolo, a dona de casa pela cesta básica, o jovem pelo emprego, nem o pobre pelo terreno invadido. Depende deles aceitarem toda a ajuda posível, mas não agradecer com o voto, só se o doador tiver boas propostas e for honesto. Depende.

Resolveu candidatar-se. Mas chegar ao poder depende de você. Depende da sua consciência. Ou da sua cesta básica.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

ARTIGO...

EU VOU FAZER A MINHA PARTE
Publicado no Jornal Folha dos Lagos em 13 de julho de 2008 - Coluna JUVENTUDE TEM VOZ – Todos os domingos, na Folha


“O jovem é o futuro do País”. Essa frase é mais repetida que derrota do Fluminense e mais falsa que os cabelos de um ex-Prefeito, ou que o sorriso de um atual governante.

Dizer a alguém uma outra frase clichê “você tem futuro”, também não significa necessariamente um elogio. Futuro todos temos. Se será bom ou medíocre, é outra história. Afirmar, com a boca cheia de dentes eleitoreiros, que o jovem é o futuro da nação, significa apenas dizer “quem manda no presente sou eu. Você, jovem, que espere a sua vez”. E nós, no entanto, às vezes ouvimos essa hipócrita frase de efeito com lágrimas nos olhos. Talvez não lágrimas de crocodilo. Mas lágrimas de palhaço.

O jovem NÃO É o futuro do País. O jovem é o presente. Somos nós que devemos, desde já, tomarmos as rédeas da sociedade, simplesmente pelo fato de que aqueles que hoje conduzem este cavalo desenfreado chamado Brasil, são péssimos jóqueis. Cabe a nós fazermos de maneira limpa o trabalho sujo que eles andam fazendo.

Isso pode começar em casa. Pode começar na rua, por meio de Associações de Moradores, na escola ou Universidade, através dos Grêmios Estudantis e Centros Acadêmicos. Pode começar no nosso emprego, por meio dos Sindicatos. Pode começar no convívio religioso, com as Pastorais, Missões e Células. Pode começar no grupo de amigos, na Escola de Samba, na galera do futebol ou na rampa de skate. Mas a melhor forma de começar essa tomada do poder está mais perto que pensamos.

Em outubro, teremos eleições municipais. Não adianta pensar no Brasil se não pensarmos primeiro na nossa cidade de Cabo Frio.

O ato de votar vem sendo mais desprezado que o Ronaldo Fenômeno depois dos noventa quilos: A juventude, infelizmente, acaba acompanhando esse ritmo, entendendo que um voto não faz a diferença e que todos os políticos são igualmente corruptos. Esse pensamento é uma moda, um clichê, um lugar comum, um padrão social. O jovem tem como característica histórica destruir os padrões. Nossa missão, portanto, é pensar diferente: O político desonesto contribui muito para o atual caos social, mas transferir a total responsabilidade de um problema para outra pessoa ou classe não é uma forma de revolta: É um ato de covardia. Quem tem sangue nas veias chama a responsabilidade de mudar para si mesmo. A frase correta então deve ser: “EU VOU FAZER A MINHA PARTE!”

De que adianta se indignar com a compra de votos por meio de ofertas de empregos, casas, cimento, tijolo ou cesta básica, se você anula seu voto ou vota naqueles que compram votos? NÃO BASTA INDIGNAÇÃO: É PRECISO ATITUDE! E a sua atitude pode ser um voto livre. Um voto que não se submeta a pesquisas eleitorais falsas. Um voto que não se submeta a ofertas de emprego ou favores. Um voto que não seja escravo da maioria, quando se vota “naquele que deve ganhar”, e nem escravo da omissão, quando se vota nulo. Procure um candidato que dê voz aos jovens em suas apresentações públicas, comícios ou coisas do tipo. Procure um candidato que ouça as suas idéias para montar seu Programa de Governo. Procure um candidato que proponha um governo popular e participativo.

Quando você contar para os seus filhos a realidade nojenta da política atual, e ele perguntar o que você fez para tentar mudar, que resposta você terá? Será que você poderá dizer que fez a sua parte, votando livre? Ou terá como resposta o silêncio?

Eu vou fazer a minha parte. Por amor a Cabo Frio, meu voto é livre!


Rafael Peçanha, Daniella Mendes e Osmar Filho
Membros do Movimento Jovem Unido

quarta-feira, 9 de julho de 2008

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AH, É DINAMITE!!

Publicado no Jornal Folha dos Lagos em 06 de julho. COLUNA JUVENTUDE TEM VOZ, todo domingo, na Folha.



Como bom vascaíno, comemorei com empolgação a tão desejada e postergada vitória de Roberto Dinamite, eleito novo Presidente do Vasco da Gama, dando fim a uma era de corrupção, ditadura e opressão do Imperador Eurico Miranda.

A vitória de Dinamite é emblemática. Ídolo do clube e maior atleta de sua história, Roberto há anos tenta a vitória nas eleições do clube, marcadas por fraudes e desmandos. O ex-jogador partiu de um desejo de mudança simples, e foi evoluindo em sua trajetória, conquistando adeptos, fundando o MUV – Movimento Unido Vascaíno, até alcançar a vitória no último pleito.
A epopéia dinamítica – permitam-me o neologismo – só alcançou a vitória porque traçou seu caminhar com cinco grandes passos. Esses passos devem ser, acredito eu, lições para a nossa juventude cabofriense, diante deste momento eleitoral e em relação à política em geral.


A primeira lição é o primeiro passo que devemos dar: ENTENDER. É o passo mais difícil. Não que nós, jovens, tenhamos um QI de Toninho Branco ou de Luciana Gimenez. O mecanismo e as conclusões é que são complicados mesmo. A meu ver, precisamos entender o seguinte: Independente de ser boa ou ruim, a política é o único caminho para se mudar a história de uma cidade. Sem o engajamento político, não há possibilidade de o jovem fazer algo efetivo pela mudança de Cabo Frio. Que meus 17 leitores – obrigado mãe! – desculpem a franqueza, mas é exatamente o que penso. Esse caminho da política, porém, não significa filiação partidária. Significa engajamento em instituições políticas: Grêmios estudantis, Centros Acadêmicos, Associações de Moradores, Sindicatos, Movimentos Culturais e, também, os partidos políticos. Afinal, como diria Emanuel Mounier, “tudo é político, ainda que o político não seja tudo”.


O segundo passo é ACREDITAR. Eu posso ter entendido a reflexão do parágrafo anterior, mas não acreditar nela, como entendo a explicação do Alair sobre os 15 cartões, mas não acredito. Acreditar é uma questão de confiança, e confiança é uma questão de história, porque confiamos em quem mostra bom “currículo”. Por exemplo: É mais fácil acreditar no Dinamite que no Eurico, porque a história de vida deste é lotada de crimes, e daquele não. A história do engajamento do jovem na política também é lotada de vitórias: O movimento de 68, as Diretas Já, os cara-pintadas, o movimento estudantil contra Ditadura de 64, as invasões recentes na USP, entre outros fatos, mostram que o jovem só consegue mudar o rumo da história quando se engaja politicamente. Vale à pena confiar porque a história prova isso.


O terceiro passo é QUERER. Aí já é uma questão de ser medíocre ou corajoso. Se você entende o único caminho para a mudança da história da cidade e acredita nele, mas não quer se engajar, você é um medíocre. Se quer, você é corajoso. Os medíocres preferem sentar nos bares para falar de Marx e pregar a revolução, voltando em seguida para casa e terminando o dia vendo o Corujão. Os corajosos colocam a cara na reta e defendem suas idéias nas ruas e na imprensa, se engajando e articulando soluções concretas para a sociedade.


O quarto passo é PERSISTIR. Dinamite foi derrotado em várias eleições, mas não desistiu. Por quê? Porque ele entendeu que o único caminho para mudar o Vasco era aquele; ele acreditou nesse caminho e quis traçá-lo. Persistir é uma questão de necessidade. Se eu acredito e não persisto, eu morro por dentro, porque não consigo objetivar, trazer para a prática aquilo que eu acredito. A vitória pode não vir automaticamente. Mas ela vem. Dinamite que o diga e, bem ou mal, Lula também.


O quinto e último passo é CEDER. Dinamite teve de renunciar a algumas idéias originais para chegar ao poder, agregando pessoas que às vezes não eram ideais, mas eram reais. Precisou dar um passo atrás para dar dois à frente. O problema dessa parte é saber o quanto ceder e a hora certa de ceder. O Lula, por exemplo, cedeu demais, e seu Governo virou um saco de lixos de várias espécies, misturados. O jovem precisa se engajar com ideal e brio, mas também com senso de realidade e pés no chão.


Que a vitória do nosso craque sirva, portanto, como uma boa lição para a consciência política da nossa juventude cabofriense nas eleições que se aproximam, para que não cantemos mais como Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho: “Acreditar: Eu não... recomeçar: Jamais...”. Cantemos como Flavinho Silva, famoso na voz de Diogo Nogueira: “passo a passo um dia a gente chega lá, pois não existe mal que não possa acabar”

segunda-feira, 7 de julho de 2008

ARTIGO...

OUÇO SIRENES
Publicado no Jornal Folha dos Lagos em 29 de julho. COLUNA JUVENTUDE TEM VOZ, todo domingo, na Folha.

Acordo. Na casa ao lado, um funk mais que sacana. Em frente, hinos de um louvor dominical em plena sexta. Abro olhos, mas não vejo: Apenas ouço. E ouço sirenes.

Era sexta, mas o som da quinta anterior de repetia. Da primeira vez pensei que as sirenes eram homenagens de uma das namoradas que eu nem sabia que tinha. Não eram. Na semana seguinte, sexta, ouvi novamente o som intrigante. vinha de um carro preto, com a essência mais próxima da esposa que da namorada: Era a Polícia. Seu sobrenome lembrava a língua presa barbuda de dedos cortados: Federal. Ouço sirenes.

Mal sabia: Dia 12 não era dia de namorado algum: Era dia da Operação Volta a Passárgada, da Polícia Federal, em Cabo Frio, ligada à prisão do Prefeito de Juiz de Fora. Uma semana depois apenas, dia 20, não se preparava o fim-de-semana, mas sim chegava na cidade uma outra Operação da Federal, chamada João de Barro, ligada às verbas desviadas do PAC. O carro da PF fecha a Prefeitura e impede a entrada de funcionários ela manhã para apreender documentos. E eu já ouvia sirenes.

Mas o que seria uma sirene? Som estridente, em par com luzes de cores, objetivando alertar, anunciar e tornar público um ato? Diria o poeta: A sirene é um símbolo. Um objeto abjeto. É um sinal quase profético de que há algo podre no ar. É uma imagem emblemática que anuncia a presença de corrupção, descaso, doença ou crime.

Ouço sirenes de um carro fumacê. Ele cria na cidade uma cortina que cega. Esse carro vem acompanhado de uma canção infantil, que diz: “a polícia bateu na minha porta / e eu abri / senhoras e senhores, batam na porta dos outros Prefeitos / porque eu não tenho nada a ver com isso aí”. A cortina de fumaça, acompanhada da sirene, faz um efeito hipnótico: Meu povo adoece com amnésia. Ninguém lembra, ninguém viu, ninguém fala da Federal...e ao final o carro passa a recolher jornais...

Perto da praia, ouço sirenes. Vêm do Colégio Estadual Miguel Couto, e marca o fim do recreio. Lembra-me prisões, onde o fim do banho-de-sol se dá ao disparar de filosofais sirenes. Não seriam as escolas municipais, também, semelhantes prisões, onde o saber é encarcerado e a criatividade enclausurada? Talvez sim. E talvez por isso a Escola Municipal Ver. Leaquin Schuindt tenha sido eleita uma das 20 piores do Estado. Ouço sirenes.

Os cães ladram, mas as sirenes não param. Agra é a ambulância, levando o bebê a Macaé, ou o vovô a Araruama. Uma sirene turística, digamos: Não é todo dia que se visita outra cidade da Região dos Lagos tendo como passaporte a falta de UTI. Era a sirene do turismo hospitalar, popular e forte o ano inteiro. Para o cidadão.

Na favela, ouço sirenes: Gemem qual samba, acompanhadas de uma marcação carnavalesca, como um surdo, que deixa mudo o morador: Pá-pá-pá ou coisa do tipo; moleque estatelado no chão, quem sabe emocionado com a música daquele abre-alas ou carro-viatura. O sangue ao lado é cenográfico, disseram na rádio.

Ouço sirenes, mas não ouço vozes. Ouço silêncio, mas não vejo dotes. Vejo revolta, sinto esperança, mas não vejo nada, a não ser uma cortina de fumaça. Finjo que não é comigo, mudo de assunto, convenço com a convenção e te emudeço, te torno cego. Mas no meio da noite ou no raio do dia ainda escuto. Ainda ouço e ainda vou ouvir. Sirenes.