terça-feira, 24 de julho de 2007

DIA DO AMIGO !!!


QUEM É O AMIGO ???

Publicado no Jornal Folha dos Lagos, em 20 de julho de 2007, dia do amigo



Retornando de viagem após dez longínquos dias, pude observar mudanças interessantes nas ruas e nos jornais da cidade: Adesivos afirmando a “volta do amigo”, semelhante à ”volta do boêmio”. Além disso, notícias estampando balas perdidas que atingem estudantes, sem falar das manifestações dos jovens do Colégio Rui Barbosa e das declarações engraçadas, se não fossem trágicas, de um Secretário de Educação. Enfim, parece que a cidade esquentou enquanto eu estive fora.

Só que hoje é dia do amigo, dia de festejar. Mas afinal, quem é o amigo? É aquele que volta? Em primeiro lugar, é aquele fiel, que cumpre o que diz. Pode até ir embora pra depois voltar, desde que deixe claro, desde o começo, que irá voltar, e não prometa que vai dar lugar a outro amigo para depois trair sua própria palavra. Todo esse processo, porém, pelo menos para mim, já era sabido há exatos quatro anos: A volta do boêmio é sempre certa, pois por mais que ele se afaste do bar, na primeira oportunidade, retorna a ele, pois seu vício tem que ser alimentado, sua sede por aquilo que movimenta sua vida tem de ser saciada, a fonte de sua embriaguez tem que voltar ao seu bolso, quer dizer, à sua goela.

Quem é o amigo? Aquele que afirma em entrevista que os estudantes amam seus lindos uniformes, menos de dez dias depois deles irem às ruas protestar contra os mesmos? Quem é o amigo? O Secretário que chama os estudantes de manipulados e os professores de ultrapassados? Quem é o amigo? O Secretário que firma que é “normal um governo colocar sua logomarca e depois o próximo colocar a sua”, gastando o dinheiro do povo na mudança de placas de ruas, uniformes, carros oficiais, gastos fúteis de mera promoção pessoal? Quem é o amigo?

Quem é o amigo? O que não envia aos eventos estudantis a segurança necessária, permitindo que uma bala perdida atinja um dos jovens, enquanto a mesma “segurança” é presente e competente para reprimir a manifestação democrática de professores? Quem é o amigo?

Talvez nós, jovens, estudantes, estejamos como o Náufrago Tom Hanks: Isolados, sem amigos. Mas não queremos fazer de uma bola de Vôlei nosso amigo imaginário. Queremos amigos de verdade. Não queremos amigos que voltem por interesse nem amigos que finjam gostar de nós.Como disseram os estudantes do Colégio Rui Barbosa, “queremos Vereadores pelos estudantes”. Queremos amigos de verdade. Ter um amigo. Na vida é tão bom ter amigo. A gente precisa de amigo do peito. Amigo de fé, amigo irmão...

ARTIGO...


FÉRIAS...

Publicado no Jornal Folha dos Lagos, em 18 de julho de 2007, na Coluna do SEPE


Chega o momento das férias escolares. A dúvida é: Para onde ir ? A indecisão é a mãe de nossas almas - aliás, uma desgraçada madrasta. Por isso, a Agência de Turismo Para o Cidadão apresenta algumas opções de viagens para o recesso escolar da nossa juventude cabofriense e dos nossos mestres:

ÔNIBUS DA SALINEIRA: Opção de lazer voltada aos alunos da Rede Pública. Que maravilha rodar a cidade e região através da Auto-Viação Salineira! Pedimos apenas paciência aos estudantes, que precisarão esperar os veículos grandes, já que os Micro-ônibus não estão incluídos no pacote. Lembramos ainda que os uniformes não equivalem mais a passaporte para esse tipo de excursão. A Salineira vem estudando a melhor possibilidade para a questão e provavelmente os alunos terão de entrar nos ônibus com as respectivas mesas e cadeiras que utilizaram no semestre letivo, a fim de comprovar que realmente estudaram, logo, que merecem a gratuidade na viagem de férias. Boa viagem!

FESTAS DE CORPUS CHRISTI: Programa turístico voltado para os Professores. Arriscado, em primeiro lugar, porque as exposições de tapetes de sal já acabaram na região, mas como temos algumas localidades atrasadas, é possível ainda encontrá-las. O segundo risco é ser abordado pela Guarda Municipal, por isso, um alerta: Nada de levar panfletos e organizar manifestações justas nesse tipo de excursão, porque todos nós sabemos: Em temporada de festas turísticas, a Democracia é quem entra de férias. Outra desvantagem deste pacote é que o custo é alto. Mas isso não é problema: O Piso dos Servidores foi ajustado e os Professores não têm do que reclamar, disse-nos um sorridente rapaz.

ESTACIONAMENTOS E FILAS DE XEROX DAS UNIVERSIDADES DE CABO FRIO: É a grande moda das férias universitárias. Já superou o pacote “Passe suas férias no aeroporto à espera de seu vôo”, da agência de turismo concorrente. Atrasos nas filas de xerox são muito mais radicais e divertidos! Claro que o barato – sem trocadilhos - é ir de carro até a Instituição e deixá-lo no estacionamento, pagando, lógico. Afinal, as mensalidades já são tão baratas que não custa nada dar uma ajuda aos pobres reitores ...

Que neste breve recesso não tiremos férias da consciência, da crítica construtiva, da luta e da esperança. Até a volta!

sábado, 14 de julho de 2007


10 dias entre o céu e a floresta - De volta para casa...

Plácido de Castro , 14 de julho de 2007


Há dois dias estava em Rio Branco, uma capital de Estado que não o parece. Pouca estrutura e alguns ares apenas de grande cidade. Pude ter contato com índios da tribo Kupixawa-Kaxinawa, do Jordão, fronteira com o Peru, que me ensinaram algumas doutrinas do Santo Daime. O grande Rio Acre, que banhou minhas visitas a Cobija (Bolívia), Rio Branco e Plácido, esconde realidades desafiadoras, como em Xapuri, também banhada pelas águas do Acre, onde encontramos uma família que morava em um barco, amarrado num toco, à beira rio. 3 pessoas, na parte da frente guardavam os bujões de gás;em cima, as galinhas a serem comidas/vendidas; numa dispensa improvisada lateral, os ingredientes e panelas. Navegar é preciso. Viver não é preciso.

Ontem aqui em Plácido pude visitar os cultuadores do Santo Daime. Há 3 linhas de seguimento: Uma mais ligada às divindades vegetais, outra ligada ao espiritismoe outra original dos indígenas. A mistura do cipó jagube com a chacrona fazem um alucinógeno forte e enjoativo. Algumas pessoas no culto não aguentaram a dose...eu mesmo tive de me segurar e para observarmos o efeito psicológico da droga, agora, só de lembrar do culto, estou sentindo o mesmo enjôo provocado pelo chá do Daime. Mas seus efeitos são controláveis, basta um pouco de coordenação mental. Mas de fato, não é aconselhável o uso ! É uma experiência que fica mais interessante quando conversada pessoalmente, não dá para escrever aqui.

Ontem pude tirar algumas fotos do Rio Abunã, que faz fronteira com a Bolívia. Mas o mais interessante foi encontrar com o pequeno Jaílson, um menino de 6 anos, falante e observador ao mesmo tempo, como o povo acreano o é. Conversou sobre as dificuldades do povo desta cidade, que tem parentes na Bolívia e precisa atravessar o Rio a barca diariamente, correndo perigos. Ele mesmo mostrou-se bravo e valente, mas sem perceber foi fossilizado pelas lentes da minha máquina, contemplando a vila boliviana arrasada por incêndio, na outra margem do Abunã. Tristeza, reflexão ou nada? O que passava naquelepequena mente? Impossível saber, assim como é impossível saber tudo que se passa na mente deste povo acreano. Sabemos em primeiro momento apenaso que há em seus corações: Sofrimento e alegria; esperança e paz; dor e prazer em viver.

Parece-me que depois das 3h30 de efeito do Daime, do canto dos pássaros hoje pela manhã e do pequeno Jaílson, minhas experiências ficam encerradas aqui no Acre. Fica a lição de que quanto mais fácil a vida, mas difícil ela fica, pois esse povo tem um cotidiano difícil e uma alegria e simpatia fácil de se sentir. Fica a lição de que o mais importante e viver e o menos perfeito é o falar - eu mesmo já não estou com tanta inspiração para transmitir, embora tomado de vida e empolgação. Fica a lição de que nada vale conhecer sem experienciar e de nada vale experienciar em outra terra sem o compromisso de aplicar os ensinamentos em nosso próprio chão. Foram 5 cidades do Acre, 1 da Bolívia e mais 2 cidades de passagem. Da pobreza do ramal do Bengala aos monumentos públicos de Rio Branco; de muito poucos indígenas aos muito numerosos dematamentos; de mata virgem conservada a seringais, de Daime a Missões Católicas, fica a verdade: Nosso Brasil é diverso, mas unido em uma força: Em cada canto, há sempre o mesmo povo sofrido que encontra a felicidade em meio a destroços. Em cada lugar, nossa missão deve ser aprender sua alegria e dar-lhes o pão de cada dia: Do conhecimento, da mobilização, da alimentação e do respeito. Salve os Povos da Floresta !

segunda-feira, 9 de julho de 2007

10 dias entre o céu e a floresta - Na terra de Chico Mendes !!

Xapuri, 09 de julho de 2007

Se os 4 dias em Acrelândia foram edificantes, o dia de hoje em Xapuri foi emocionante. Tive a oportunidade de estar na casa de Chico Mendes, onde eles conservaram tudo original: Estante, livros (ele leu Stálin, Lênin e outros), móveis...as marcas de sangue pelo tiro que ceifou-lhe a vida permanecem pela casa. Um coqueiro do lado de fora serviu de tocaia para seus assassinos. Engraçado e arrepiante notar que este coqueiro morreu dias depois que o Chico passou desta vida. Tentaram plantar um novo coqueiro no mesmo lugar, porém, mesmo depois de mais de 15 anos, o coqueiro não vingou, permanece quase muda...um sinal quase profético de que a memória do guerreiro que lutou e morreu pelos povos da floresta tem de permanecer viva. Tive a oportunidade de conversar com a cunhada do Chico, a Deusimar, que me falou de suas lembranças de ontem e aflições de hoje com a dor dos seringueiros e do povo acreano. Do lado de fora da casa, uma inscrição de cimento: "Aqui morreu Chico Mendes. A luta continua." Uma última carta escrita por ele falava do ano de 2120, onde uma revolução socialista tinha unido os povos do mundo e a dor e sofrimento já era passado. Na carta, ele diz acordar e entender ser um sonho "que pude sonhar, mas que não poderei ver". Será que precisaremos esperar 2120 para confirmar a profecia do grande Chico?

Pela manhã estive em Plácido de Castro. O Rio Abunã marca a fronteira entre Brasil e Bolívia e pude ver do outro lado as moradias dos filhos (ou talvez enteados) do Sr. Evo Morales, mesmo não tendo atravessado a fronteira. Parte da vila boliviana foi destruída por um incêndio e, pela ajuda recebida do presidente de seu país, os bolivianos dali darão o nome de "Vila Evo Morales" ao local. Bem, dispensa-se comentários...

Antes de encerrar apenas dois detalhes

O primeiro é notar como as informações da Amazônia são maquiadas para o resto do Brasil. Nosso Presidente afirmou no Jornal Nacional que não é possível plantar cana na Amazônia. Engraçado: Eu assisti a reportagem na casa do Sr. Edvaldo, cujo quintal é repleto de cana, plantada em dezembro e já pronta para o corte, o que é um tempo breve, sinal de solo perfeito para o plantio. Passando hoje por Senador Guiomard, pude observar quilômetros de plantação de cana ininterruptas e a presença da "Álcool Verde", empresa acreana de produção de álcool, uma das maiores do Brasil.

Em segundo lugar, preciso retificar o último texto, no qual pareci um tanto quanto pessimista, como se não houvesse mata fechada e florestas por aqui. Errei. Há muito verde ainda. O pôr-do-sol é belíssimo e estive em muitas localidades intocadas de pura floresta amazônica. Apenas temo ser mais um a passar uma imagem bucólica e sem defeitos de uma Amazônia machucada pela ambição do homem da borracha, do homem do gado, do homem do capital sem escrúpulos.

Amanhã iremos a Brasiléia, fronteira com a Bolívia.

Salve os Povos da Floresta !

sexta-feira, 6 de julho de 2007

10 dias entre o céu e a Floresta: Férias na Amazônia
Cheguei por aqui no Acre dia 04. Pousei em Rio Branco e vim de carro até Acrelândia, uma cidade que fica da Capital mais ou menos a mesma distância de Cabo Frio para Niterói, um Município existente há apenas 15 anos, muito pobre e com uma Prefeitura inoperante e sem recursos. Pela estrada já deu pra sentir o clima: Enquanto na capital a floresta e seu povo são exaltados, com praças e monumentos em honra a Chico Mendes, na periferia há o desmatamento e grandes madeireiras, além de queimadas. Só na cidade me que estou existem 4 madeireiras e o desmatamento é forte. Ontem e hoje andamos eu, Frei Eduardo e Macois, de casa em casa visitando as famílias do Ramal Bengala. Os Ramais são grandes estradas abertas no meio da Floresta onde residem pessoas pobres: Plantadores de feijão, seringueiros, pequenos pecuaristas e agricultores. Todos moram em casas 100% de madeira, algumas medianas, outras muito pobres, miseráveis por vezes. Tudo por aqui é de madeira, mas no caso dessa gente, o desmatamento é necessidade: Não há pedras de construção nem indústrias de cimento, só existe a madeira das árvores para fazer morada. As casas nascidas das árvores são lindas e aconchegantes, a sala do povo é a varanda, onde recebem os visitantes. As caixas de correios por aqui recebem a inscrição "talões de luz", pois só as corbanças de energia é que chegam por aqui.
O Ramal do Bengala tem cerca de 18 km e seu início está a 4 km da cidade de Acrelândia. Há pessoas que andam 11 km para ir no domingo às Missas. Há crianças do Ramal do Pelé, mais longe, que acordam 1h da manhã, caminham 5h até o ponto de ônibus, onde tomam a condução às 6h para estudar na cidade às 7h. E nós às vezes reclamamos tanto...
Por aqui meu celular não dá sinal de vida e só há um banco disponível. O açaí e o cupuaçú são as grandes frutas, mas há o ingá, acerola, banana e outros frutos fortes da terra. A carne de novilha é agrande pedida e não há pão de padaria, só caseiro, por sinal, muito apetitoso. O povo é muito acolhedor, sincero e alegre, embora sofrido lá nos ramais. Dá para experimentar toda a culinária amazônica. A floresta fechada aqui é raridade, e apenas heróis como o Sr. Veríssimo consegue mantê-la. Ele tem uma propriedade com Floresta fechada, mini-seringal e criação de pacas no km 10 do Bengala, onde todas as árvores são emplacadas e catalogadas: São cerca de 400. E seu Veríssimo não é um magnata, apenas um aposentado que vendeu um carro semana passada pra pagar dívidas. Prova que não se precisa de muito para fazer o pouco necessário...
As situações familiares aqui são as mais variadas: Desde chefes de família que recebem R$ 380,00 para o sustento de 7 pessoas, como o Seu Pedro, marido da Zeli, até gente que mora sozinha isolada de todo mundo, como muitos peões. Aliás, o povo da floresta está se transformando em povo do gado: Incutiram na cabeça dessa gente que gado é solução e que tirar da floresta o sustento é atraso de vida. Isso aqui é cheio de peões! Mas alguns heróis como o Seu Veríssimo e o Osmar, na casa do qual jantamos e dormimos ontem ainda mantém viva a chama do amor pela floresta, nos fazendo lembrar o grande Chico Mendes. Há paisagens secas que mais parecem o cerrado nordestino e descampados como o de Campos e Saquarema. Mas também há passagens belíssimas, enormes castanheiras e seringueiras que emocionam só de olhar e lembrar quantos morreram por causa dessa borracha, que aliás, espalha seu cheiro pelas estradas acreanas, um cheiro forte e não muito agradável, mas ainda assim menos doloroso que o cheiro das queimadas e das carvoarias. Não há nem resquício de índios por aqui, só nos olhos puxados e na cor da pele de muitos moradores. Mas há comunidades fiéia do outro lado do Acre, no Oeste, perto de Feijó e Cruzeiro do Sul.
Amanhã ainda estaremos em Acrelândia, até domingo de noite, quando rumaremos para Plácido de Castro. Depois, passaremos por Brasiléia e iremos à Bolívia conhecer um pouco da Amazônia fora do Brasil.
Até mais e salve os povos da floresta !
Acrelândia, 06 de julho de 2007